sexta-feira, 19 de junho de 2020

O fashionismo hipster e modismo startupeiro na grande corporação: uma busca afoita e muitas vezes apenas estética e superficial


Nossa empresa não tem sido muito inovadora mas a solução está clara: vamos colorir as paredes do escritório que agora chamamos de studio, empregar hipsters descolados para fazer um “user research” e encher a “project room” de post its em um workshop de cocriação que chamaremos de hackaton.



Quando ainda na universidade fui agraciado por ter já pelos idos do 7o semestre, em meio as créditos de filosofia, ciência política e história da arte, a disciplina de administração de empresas ministrada de forma diferenciada, embebida em uma imersão humanista e reflexiva. 

Ao invés de simplesmente se propor a apresentar de forma instrumental os conceitos, a professora se incumbia em estimular uma visão crítica às escolas de gestão que, ao longo do desenvolvimento industrial, ditaram (e ainda o fazem) sucessivos “modismos” que são engolidos pelas empresas sem um raciocínio mais crítico. 

Tornava-se assim possível desmistificar e desconstruir inúmeros gurus e enxergar, por trás de sua pompa, pessoas espertas o suficiente para criar/antecipar tendências e “engarrafá-las” em livros, artigos, palestras e consultorias que acabam por encher os próprios bolsos sem necessariamente trazer proporcional ganho àqueles que tais medidas adotam.

Obviamente há mentes brilhantes e muita virtuosidades em diversas estratégias corporativas, mas observando alguns casos e comportamentos chego a pensar se o processo evolutivo das espécies não fez uma concessão fazendo com que o homo sapiens retrocedesse com a subespécie do homo corporativus limitadusaquele que com os muitos estrangeirismos empregados em sua fala (afinal, por que conjugar o verbo “iniciar" se pode dizer “startar”) se gaba de seu pragmatismo e suas falas objetivas e decisões. Pouco importa se muitas destas são tomadas apressadamente e de forma infundada, apenas não sendo explicitamente questionadas em virtude do jogo hierárquico e político de poder. Neste sentido sempre achei a o termo “executivo” de certa forma pejorativo parecendo existir uma nova divisão de tarefas pós moderna em que há “os que pensam” e "os que executam” (analogamente à idade média em que haviam aqueles que guerreavam, os que trabalhavam e os que rezavam). Como figuras desta espécie estão entre nós nos corredores corporativos, cenas atordoantes como as do vídeo abaixo não são mera coincidência. 



Tampouco estou aqui negando pontos positivos e virtuosos trazidos por várias escolas administrativas, ferramentas e modelos de gestão, mas deixo minha crítica à adesão cega e indiscriminada aos mesmos (como em um comportamento de manada). Adesão esta comumente  à revelia de muito o que vem sido estudado pela academia, ciência, biografias diversas, estatísticas e mesmo senso comum. Pega-se alguns casos fora da curva como exemplos e da exceção se cria uma regra, transformando as empresas num parque de diversões para consultores (agora agências de inovação ou design researchers). De súbito abandona-se até mesmo conceitos estruturais de um negócio simplesmente porque o mercado ou a concorrência está pregando uma nova corrente. E não raras vezes há com isso a destruição de valores e diferenciais estratégicos (a reengenharia talvez tenha sido um dos exemplos mais nefastos disso). Literalmente à esteira da produção de massa de Ford todos são lançados à linha de produção móvel. Com Sloan lançam-se à customização de massa. Anos mais tarde torna-se imprescindível disseminar pelos quatro cantos os preceitos da TQM (Total Quality Management - Gestão da Qualidade Total). 



Agora a palavra da ordem é inovação, a bala de prata ou pílula mágica que vai transformar todos os negócios. Apressadamente “descobriu-se” que o que nos torna criativos é usar roupas descoladas e casuais (a versão corporativa do hipster lenhador com coque samurai, em bônus especial à adoção de  adereços de Star Wars, sapatênis e moletom), multiplicar o faturamento da 3M usando toneladas de Post It, reformar os escritórios adotando  um colorido quase cafona, rechear espaços compartilhados com móveis desconfortáveis, pouco práticos e sem ergonomia (odiados pela maioria dos colaboradores como revelado nas pesquisas e rodas de café). O que importa é parecer cool e passar a se comportar como uma startup! 

Todos sabemos e já se tornou clichê dizer que que nas últimas décadas empresas criadas por jovens universitários em garagens do vale do silício surgiram do nada com poucos recursos e desafiaram impérios estabelecidos (Apple versus IBM para ficar num exemplo igualmente clichê). Acontece que na maioria das vezes as análises superficiais (seja na pressa por adesão e apresentação de medidas nas empresas, seja pelo oportunismo ávido dos gurus, autores e consultores) ignorando-se pontos mais profundos que realmente me parecem ser mais determinantes ao sucesso, tais como:
  • o sistema de educação superior nas regiões em que tais empresas surgiram. Mesmo aqueles que abandonaram os estudos universitários puderam contar com uma formação de base diferenciada e mão de obra qualificada, como por exemplo programadores experientes. Mais que isto, além da edução “formal”, linguagens de programação, kits de desenvolvedores já estavam disseminados no país, estimulando a “criatividade para além do post it".
  • os contatos (networking para ficar no jargão corporativo) propiciados nos campi das grandes universidades (garantindo mais fácil acesso não apenas a mentes brilhantes para incorporarem as posições de trabalho, mas parcerias e fontes de financiamento)
  • recursos disponíveis de forma acessível  (maquinários, peças, matérias prima e $$$)
  • proximidade às matrizes de grandes empresas e centros de pesquisas para parcerias, acesso a mercados
  • cultura empreendedora (pouca burocracia, baixos custos e simplificação tributária para um novo negócio)
  • o próprio amplo acesso às tecnologias da atual “era industrial” , sendo que os EUA (e em especial os centros universitários de ponta do país) se aproveitaram da vanguarda tecnológica para disseminar plataformas (computadores, celulares, arduinos, etc) que propiciariam o rápido desenvolvimento de soluções por curiosos jovens igualmente “fuçados”.

Mas claro que ao invés de se atentar a estes pontos (que demandariam uma reestruturação mais profunda e de longo prazo não só no âmbito da empresa mas em toda a estrutura nacional de educação, tributação, estrutura industrial, adoção, disseminação e subsídio tecnológico para ficar em alguns exemplos) é mais fácil notar “padrões tocos”, simplistas, facilmente replicáveis e irrelevantes como:
  • os jovens fundadores das startups usavam moletons e sapatênis (pela pouca grana e/ou por ser simplesmente típico da faixa etária e vestuário daquela região)
  • estas pessoas se aglomeravam em mesas pequenas sem divisórias (normalmente a mesa de jantar dada falta de disponibilidade ou vontade de se investir inicialmente em mobiliário mais adequado)
  • muitas vezes os escritórios ou estações de trabalho eram compartilhados com outras empresas (mais uma vez, em grande parte em virtude da pouca disponibilidade financeira, ou dos “coworkings naturais” nas moradias compartilhadas)

Além da indumentária (paradoxalmente um fashionismo em si, embora travestido em uma tentativa de parecer casual), o vocabulário dos “gurus da inovação" de hoje revela um “parnasianismo rebuscado” que vai além dos neologismos e estrangeirismos corporativos comuns: as reuniões passam a ser impreterivelmente tomadas por uma chuva de chavões (buzzwords) que mais parece ter sido expelida por um "gerador de lero-lero” da internet. Sim, os descolados novos inovadores tem sempre que falar de redes neurais, fractais, singularidade, deep learning, blockchain e alimentação orgânica, ainda que muitos destes nunca tenham se aprofundado no tema com uma leitura que vá além das definições mais básicas (e nem sempre corretas) do verbete.



A cartilha doutrinador à grande corporação não para por aí: são também trazidos “novos” processos (muitos dos quais na verdade são apenas novas roupagens a velhos conceitos que de fato estavam meio esquecidos, como que em uma retomada da moda dos óculos de grandes lentes em armações estilo aviador depois de alguns anos)). Quase como que um esquadrão da moda 2.0, consultores oportunistas dão um banho se “loja” a estes traços e, voilá, tem-se então as “metodologias de boutique” prontas para serem vendidas por agências ao gestor corporativo mais desesperado ou ávido por “vender” algo novo para seus superiores. 

Tais metodologias ganham alcunhas pomposas e “inovadoras”. Se antes fazer um workshop era a coisa certa diante de um desafio (vulgo: o gestor não tem ideia do que fazer e logo propõe um workshop para “socializar” o problema e se esquivar de tomar sozinho uma decisão), agora para questões mais complexas surgiram os “grand prix de inovação” ou “hackatons” em que mais uma vez toneladas de post it são usados por vários times que se dispõem em desafios de algumas horas ou dias para chegar a soluções mais ou menos óbvias que o senso comum de alguém com boa vontade e iniciado na área chegaria talvez com menos esforço e recursos investidos. Não raras vezes as propostas ali geradas acabam sendo superficiais e apresentando fragilidades que as inviabilizam de ser levadas adiante, mas nada disso importa já que é algo “cool” que todas as empresas descoladas estão fazendo (então fazê-lo pode até gerar uma promoção aos seus idealizadores “vanguardistas” ou, melhor seria dizer, “plagiadores/copistas"). 

É um esforço válido no sentido de buscar colaboração, coesão, fazendo com que as ideias criadas nestas dinâmicas em geral acabem tendo a “paternidade” de todos os participantes (gerando uma certa sensação de pertencimento, espírito de dono), constituindo também uma interessante dinâmica para envolver pessoas externas à empresa (inovação aberta) e inegavelmente uma boa jogada de relações públicas. Questiono todavia a efetividade de tais dinâmicas para a real construção. 

Em tempo, a despeito da acidez propositalmente acidez do texto, convém deixar aqui algumas ressalvas tomadas com base em nada mais que minhas convicções pessoais:
  • De fato a academia em diversas vezes peca por ser demasiadamente pouco pragmática ou prolixa, falhando em melhor dialogar com o público em geral (e com o mercado), tornando-se muito restrita aos acadêmicos e deixando de se fazer acessível a um público mais amplo. Isso amplia a distância entre academia e empresa principalmente no Brasil.
  • Como colocado no próprio texto, muitas das “provocações” que geraram revolução nas empresas deixaram um levado positivo. A própria abordagem mais flexível e informal atual simplificou e agilizou muitos processos de gestão e decisão corporativa. 
O problema reside, no meu ponto de vista, na absorção apressada (quase desesperada) de conceitos sem uma reflexão mais ponderada que simplesmente abraça qualquer nova tendência, ainda que isso seja ancorado em boas intenções tais como a busca de maior competitividade ou a própria tentativa pessoal de ascender profissionalmente (ao se colocar na vanguarda e mostrar conexão com as novas tendências). Por diversas vezes emprega-se apenas os modismos mais estéticos sem buscar uma transformação mais efetiva na essência (o que obviamente vai muito além de paredes coloridas, “uniformes” descolados e “acessórios Star Wars”, exigindo exige mudança de cultura e processos até a alta liderança). Em outros casos, acaba-se com isso tentando forçar uma importação de conceitos de certo modo incompatível  com os valores e práticas de determinado negócio ou com a realidade da grande empresa como um todo, somente para tentar seguir as tendências dos paradigmas competitivos mais disseminados no momento (ou mainstream para ficar no estrangeirismo típico). Recentemente estive em uma conversa com investidores de startups e quando questionado sobre programas de empreendedorismo que buscam recriar a lógica de startups nas empresas Eric Archer (da empresa de venture capital Monashees) foi categórico ao dizer que “se o empreendedor não tem participação acionária no negócio e tampouco liberdade de ação você não tem startups corporativas nem venture building, você tem apenas projetos corporativos”. 

Penso assim ser bastante válido inspirar-se em novas propostas e mesmo buscar referências de outros mercados ou práticas (importando conceitos de estratégia militar, dinâmica de jogos, esportes, conceitos de hobbies variados, etc). Mas isso requer certo cuidado para não se forçar uma aceitação automática, sem filtro e forçosa. Fazê-lo é a antítese do pensamento crítico em uma perigosa atração à simplificação apressada (veja meu post sobre este tema em http://lucidez-insana.blogspot.com/2020/06/o-perigoso-e-atrativo-conforto-do.html).





O perigoso e atrativo conforto do simplismo: aqui jaz o pensamento crítico


Já diria o chavão que “a ignorância é uma benção”. Ainda que obviamente no geral isso não seja tão verdadeiro, a assertiva é coerente da perspectiva de que pessoas que se dispõem a refletir ou questionar menos aparentemente conseguem deleitar-se com o movimento dos ponteiros sem se incomodar ou questionar a sincronicidade do mecanismo que os move. Já diria meu colega que quem é superficial pega a sopa morna por cima sem queimar a boca com o líquido quente que está na camada de baixo. Ainda sim, também é verdade que com esta superficialidade (ou medo) deixe-se de consumir todo o conteúdo do prato. 

De uma forma ou de outra a humanidade parece inconscientemente confirmar isso, afinal a maioria prefere o conforto de acreditar nos "contos de fadas" e "figuras mitológicas” das soluções simples para problemas complexos vendidas como um “fast food” enlatado e empurrado goela abaixo com muita maestria e perspicácia por indivíduos, empresas e políticos oportunistas de plantão. Afinal, para que fazer uma reeducação alimentar, privar-se dos prazeres dos açúcares, gastar horas no mercado e fogão para preparar alimentos saudáveis, literalmente transpirar com exercícios cardio e investir horas na academia se uma nova dieta, treinamento ou equipamento milagroso promete resultados rápidos? Para que ler um livro, estudar um tema se um Meme ou um vídeo de 1 minuto supostamente traduz toda a complexidade da matéria? Soluções simplistas (de fácil disseminação e entendimento) mas de falsa eficácia e sustentabilidade  são atrativas justamente por serem apresentadas como algo de fácil acesso e baixo esforço. 

Nelson Rodrigues com sua perspicaz acidez já diria que “a unanimidade é burra” e por extensão acredito que possamos dizer que tudo o que é amplamente aceito é no mínimo suspeito. 

A própria ciência é comumente incompreendida e criticada por nobremente não ser taxativa e normativa, não ousando possuir soluções definitivas. Ao contrário disso, ela se limita a se aceitar apenas como um “estado provisório da verdade”.
Einstein a definiria humildemente como o “estado atual de nossos erros” já admitindo o caráter transitório das postulações e teorias hoje aceitas. Trata-se de aceitar que o mundo é uma evolução constante e o que simplificadamente chamamos de “verdade” é na verdade uma  construção contínua, e não uma verdades absoluta (perspectiva bem próxima à proposta da crítica imanente proposta pela Teoria Crítica ou pela Escola de Frankfurt). 

Talvez por isso tanto as carreiras como a  pesquisa científica estejam infelizmente tão acanhadas nos dias de hoje em comparação aos consultores/agências/palestrantes/gurus/coaches de pensamentos “revolucionários" que geralmente podem ser simplificados em “5 ou 7 lições ou passos” para preencher alguns capítulos e emplacar mais um "best seller", seja nas prateleiras de auto ajuda, na sessão das estratégias de negócios ou gestão, no vídeo de youtube, meme ou orientação do coach mais próximo.

Há algum tempo (infelizmente de forma não tão proeminente ou difundida) propõe-se inclusive o termo normose como alcunha para esta “doença de ser normal“, ou seja, de não questionar as premissas, de não se pensar criticamente. Trata-se na verdade apenas de uma nova roupagem à “banalidade do mal” há mais de 50 anos preconizada por Hanna Arendt ao identificar que muitas vezes o comportamento doentio e cruel humano (e ela se referia às ações de oficiais Nazistas nos campos de concentração) está em justamente obedecer cegamente sem questionar, sem dispor de um olhar mais crítico. Vale lembrar que no passado se aceitava até que se lançassem pessoas à fogueira simplesmente por ser “normal” aceitar aquilo que era dogmaticamente postulado pela Igreja. 

Em um mundo “geração prozac” em que as pessoas se encantam pela ideia de pílulas mágicas e balas de prata que funcionam como uma solução geral para todos os males, a normose ou “banalidade do mal” persiste sendo esta falta de questionamento em uma adesão apressada de novas soluções enlatadas. 

Falo a língua dos loucos pois já não me conformo com a mordida coerência dos lúcidos
Fernando Pessoa


domingo, 14 de junho de 2020

Por que não nos dispomos a pensar em um novo sistema de produção verdadeiramente sustenável no "novo normal" pós pandemia?

Ainda meio adormecido e me preparando pela manhã para mais uma jornada (doméstica) de trabalho em meio à pandemia, abri meu guarda roupas e não pude deixar de reparar na quantidade de camisas, sapatos e calças que simplesmente deixei de utilizar nos últimos 2 meses quando o trabalho remoto começou.
Já havia tido este sentimento em outras ocasiões, como durante expedições de moto ou viagens mochileiras em que você aprende a ser minimalista levando consigo não mais que duas calças e 4 ou 5 camisetas para 30 dias de viagem. De todo modo, quando isso acontece por um período ainda mais prolongado e nas condições "normais" de temperatura e pressão (em uma rotina que embora esteja longe da normalidade, ao menos dialoga com algumas atividades mais corriqueiras).
Assim, para além dos aprendizados e simplificações mais óbvias (como as lições de que podemos poupar combustível e horas de trânsito ao simplesmente trabalhando remotamente em atividades que nunca de fato exigiram presença física), acredito que possamos extrapolar e melhor explorar algumas virtuosidades deste modelo a que fomos forçosamente submetidos (e que pode, afinal, trazer alguns ganhos a despeito dos óbvios infortúnios):
- como já citado, podemos economizar combustível evitar perder horas a fio no trânsito (levantamento da empresa Inrix https://pt.euronews.com/2017/02/23/congestionamentos-de-transito-los-angeles-o-pesadelo-dos-condutores - revela que em média no Brasil foram perdidas 37 horas no trânsito, situação que é ainda mais drástica na cidade de São Paulo onde se perde aproximadamente 77horas comutando-se, com impacto de 156 bilhões no PIB - http://agencia.fapesp.br/brasil-perde-r-1562-bilhoes-do-pib-com-a-morosidade-do-transito-em-sao-paulo/21984/ ). 
- quiçá sequer precisemos mais de um carro já que para saídas mais pontuais os transportes de aplicativos parecem ser uma solução muito mais inteligente (pensando no mundo pós vacina)
- conseguimos economizar ao reduzir as refeições fora de casa e, mais que isto, curtir um pouco de culinária, slow food e alimentações saudáveis
- talvez possamos aprender a cultivar hábitos mais saudáveis de entretenimento (leitura, música, filmes), fazendo as pazes com nossa própria companhia e reduzindo uma carência talvez excessiva e uma necessidade de passar noites à fio de bar em bar por aí (o que representa fazer as pazes com o sono, um modo de vida mais saudável e, claro, mais $$$ no bolso). Escrevi sobre isso em http://lucidez-insana.blogspot.com/2020/04/carencia-uma-comorbidade-deste.html
- menos necessidade de roupas, acessórios já que deixamos de nos "pavonear" pelos escritórios.

Eu poderia prosseguir com a lista mas acredito que o ponto ficou claro que o aprendizado e ganho vai além apenas da perspectiva financeira, sendo que uma vida moderadamente mais introspectiva e reclusa (obviamente não ao ponto do isolamento total a que fomos submetidos) pode trazer alguns outros ganhos pessoais (equilíbrio emocional, saúde e qualidade de vida), restringindo até mesmo o consumismo desenfreado que se tornou premente já há décadas. 
Em outras palavras, uma racionalização do consumo individual poderia trazer transformações sensíveis em duas diferentes instâncias:
  1. Da perspectiva pessoal seria possível uma reorientação e ressignificação de valores, com melhoria inclusive da qualidade de vida. Não só por experiência própria mas também com base em casos compartilhados por amigos, explicitou-se o potencial de economia potencialmente obtida apenas restringindo algumas despesas supérfluas (cafezinhos, almoços mais constantes fora de casa, consumo desnecessário de artigos que não precisamos). 
  2. Do ponto de vista dos impactos agregados (à economia como um todo), a reflexão é mais complexa, exigindo uma restruturação do sistema produtivo calcado no consumo de massa. Nos últimos 2 meses tivemos um exemplo esdrúxulo dos impactos de uma restrição do consumo para o emprego e renda agregados. Obviamente trata-se de uma “simulação imperfeita” já que não se tratou de uma mudança gradual e ponderada, mas de uma frenagem brusca com a paralização abrupta e extremada do consumo. Ademais, grande parte do consumo é pautado em expectativas, e diante da incerteza imposta pelo cenário atual, o impacto da pandemia é ainda mais estridente sobre o consumo (ou, posto de outro modo, mesmo aqueles que mantém condições de consumo restringem seus dispêndios por prudência). 
Repensar o consumo e as cadeias de produção de forma a permitir uma acomodação sustentável do emprego e mais equânime distribuição da renda obviamente traz um desafio mais profundo de transformação já que todo nosso sistema produtivo está fundado na constante expansão do mercado consumidor para absorver uma crescente quantidade de produtos (incluindo muita tralha inútil e desnecessária) que é cuspida a um ritmo alucinante pelas fábricas. Culpa ou, melhor dizendo, efeito colateral da industrialização e produção em massa como já há muito sabido.
Esta complexa transformação (ruptura de todo um paradigma econômico produtivo) permitiria  um "novo normal" que infelizmente poucos estão dispostos a pensar. Talvez seja este então um momento oportuno para pensar mudanças mais positivas no modelo atual, o qual já vem dando há algum tempo sinais de cansaço (crises), mas continua persistentemente sendo remendado e tocado adiante frente uma "teimosia gananciosa” dos privilegiados por este sistema, perpetuando sua inerente insustentabilidade social e ambiental. 



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Em primeiro lugar, vai tomar no cú!

(em homenagem a Rubem Fonseca e ao grito preso na garganta)

Chega de tentar ser civilizado com quem não é.
Chega de buscar diálogo com quem só faz reverberar as ideias estapafúrdias que insiste em apoiar.
Quem sabe descendo ao nível do discurso que o vem convencendo você não consiga entender o que não consegui me fazer claro com argumentos.

Chega de tentar ser respeitoso com e ser rotulado insultado, rotulado de coisas que não sou (por pessoas que sequer compreendem ao certo os rótulos que insistem em distribuir)!
Não vou pra Cuba nem Venezuela porra nenhuma! Sou brasileiro, amo meu país e tenho todo o direito de viver na pátria amada, idolatrada onde canta o sabiá (xiii, é aqui que o público a quem este texto é direcionado pára de entender)! E que vá pro inferno quem continuar falando tamanha imbecilidade!
Não votei no Collor (nem idade para isso tinha), não ajudei a eleger o PT mas aceitei a democracia que colocou cada um destes governantes no poder! E não mandei ninguém deixar seu país quando protestava em meio aos “caras pintadas” ou durante o impeachment da Dilma. Respeitei assim como quero ser respeitado meu grito de oposição agora aos nítidos absurdos que só não ver quem não quer. Aliás, essa coisa de exílio é bem típico de regime que atropela direitos individuais, saiba você! Senso crítico é apartidário e antes de mais nada, dever de cidadania.

Quer ser infantilóide e  inventar inimigo invisível pra ter uma razão de existir? Seja feliz mas vire a metralhadora de merda pra outro lado… Leia um pouco sobre Dom Quixote caçando estupidamente moinhos ou o capitão Ahab que afunda o navio (e sua própria vida) pela persistência em caçar uma Moby Dick que o marujo fantasiosamente decidiu encarar como seu inimigo e mote de vida. Você deveria ser grandinho pra conseguir pensar além de história de mocinho e bandido! Mas siga se acha bonito continuar em sua epopeia folclórica lutando contra o “homem do saco”.
Saiba que eleger e rotular um inimigo foi inclusive a propaganda de regimes temerários para legitimar ações absurdas (foi inclusive algo usado por alguns dos próprios regimes comunistas). 
E sabia que você não engana ninguém ao tentar desqualificar qualquer fonte de jornalismo DO MUNDO (juntamente a líderes mundiais e instituições multilaterais)… sabemos que você simplesmente o faz quanto lhe faltam argumentos para contestar!

Se você quer se fazer de imbecil tudo bem, mas saiba que valores humanos e uma perspectiva de justiça social não são sinônimos de SER DE ESQUERDA. Apenas acho isso mais digno que esconder sua vergonha pelas mazelas alheias atrás de um discursinho vazio e razo de “meritocracia”.
Ahhh, e antes de falar merda de “comunista de iPhone” tente aprender que a proposta ERA a propriedade comum dos MEIOS DE PRODUÇÃO. Vou traduzir pra vc entender: das fábricas, equipamentos industriais… Isso não significou a extinção da propriedade privada. Só que o negócio deu tão errado que não sobrava nem condições de comprar o mínimo, então o que muita gente conseguia era um LADA velho na garagem, o que estava muito longe de um sonho de consumo pra você postar no seu Insta. Sim, o regime comunista em todas suas tentativas foi uma merda tremenda que deu muito errado e fodeu muita gente! Já visitei 6 países e 1 cidade que tiveram experiências comunistas (China, Vietnã, Camboja, Polônia, Rússia, Cuba e Berlim Oriental) pra saber bem o legado disso e não querer  esta desgraça de forma alguma. Só pare de passar vergonha falando tanta asneira. Aproveite melhor a porra do tempo inútil que desperdiça distribuindo meme “politizado” que recebeu no WhatsApp pra ler e aprender um pouco mais. Quem sabe não usa a quarentena pra aprender alguma coisa inclusive sobre o passado de seu país.

Basta de escutar provocação de gente que se acha superior por colocar uma camiseta da seleção brasileira e desfilar do alto de seus carros com deixando vazar uma verborragia estridente e perturbante.
Não dá mais pra conviver com a hipocrisia de “protetores dos bons costumes e da família cristã” de quem pelos próprios exemplos mostrou o contrário disso. 
Nem me venha você tentar me fazer crer que agora “quer trabalhar” depois de tanto corpo mole que fazia quando juntos trabalhamos ou quando muitas vezes atendia a mim do outro lado do balcão, esquecendo prazos, não retornando ligações ou simplesmente agindo com uma puta má vontade! E antes de me chamar de vabagundo, saiba que desde os 13 anos venho fazendo uns bicos pra garantir uns trocos. Dos trabalhos com scanner pra cás foram muitos anos de empreendedorismo, 2 faculdades, mestrado, MBA, 10 anos como professor 12 anos no mundo corporativo… então… deu, né?

Chega de passar vergonha no exterior e tentar explicar o inexplicável pras pessoas que não entendem (com razão) como em sã consciência pessoas se aproveitam de MANIFESTAÇÕES DEMOCRÁTICAS PARA PEDIR O FIM DA DEMOCRACIA. 

E minhas sinceras desculpas a quem não merece pelo desabafo… seja pessoas com ideais semelhantes ou aqueles pensam diferentes mantém a racionalidade do diálogo e discurso. 

Só que pra mim já deu do modus operandi satiagraha!



sábado, 11 de abril de 2020

Amor superestimado amor


O poder da linguagem é forte. Na ficção “1984" alguns comportamentos humanos são tolhidos pela supressão de palavras no vernáculo, tornando algumas ações intraduzíveis e impensáveis, portanto inconcebíveis.

Já interpretado como “fogo que arde sem se ver”, “duas solidões protegendo-se uma à outra” ou simplesmente “um penetra na festa do destino”, o amor me parece sobrecarregado, trazendo amplitude demasiada de significado, peso e expectativa.

Tamanha responsabilidade atrelada a uma única palavra, ela se torna  um clichê que desperta ceticismo, paradoxalmente passando a muito pouco refletir na prática quando proferida. Passa a ser irmã gêmea de uma retumbante reticência. 

Tão vasto seu emprego e significado, banalizou-se, esvaziou-se tendo talvez nos tempos modernos mais efeito nas canções sertanejas de auto piedade. 

Onipresente nas menções mas pouco interpretado de fato na essência, quando tomado isoladamente parece carecer de complemento.

Sozinho portanto não basta e pouco explica, devendo ser substituído por várias dezenas de palavras mais específicas, quando não por ações que melhor traduzam o real sentimento.

Não só segundo a normal culta mas na prática e ao contrário do que sugere Mário de Andrade, amar tampouco parece de forma alguma ser “verbo intransitivo”, carece de complementação da explicação que vai muito além de apontar a pessoa amada como objeto direto.

O amor deve ter ainda seu significado combinado, ampliado, reduzido ou alterado, acompanhado de um adjunto adnominal ou colocado num devido contexto mais específico. 

Com isso eliminar-se-iam também os “diagnósticos” demasiadamente simplistas de que “falta amor”.

Mais preciso seria dizer que “o amor se foi junto aos últimos contos de réis” ou representa apenas "uma momentânea supressão à carência” ou quiça uma passageira "massagem à autoestima”.

Ainda que isso não pareça traga otimismo, parece  mais factível que uma pré anunciada falha de resgate aos valores do verdadeiro amor romântico dos versos, prosas e canções trovadorescas. 

Nossas perdas

Perder alguém é readaptar-se à companhia de si próprio (ou talvez à de outrem).

É experimentar o amargo vácuo dos momentos que não mais serão divididos.

É enxergar e sentir o cheiro daquele que se foi ao se fechar os olhos.

É ter nos cômodos um rastro fantasma das memórias ali vividas.

É virar as páginas mas se deparar com  as mesmas histórias cravadas no imaginário.

É viver a modernidade líquida e entender que somos perecíveis na vida do outro.

É dar-se conta de que estamos habituados à inércia, sendo qualquer mudança sempre tida com relutância como um corpo estranho.

É um sinal de que nós prosseguimos ainda que aos pedaços.

É também sobreviver, ainda que tentando recuperar o sentido de viver.

É permitir se reinventar. 

É parte indissociável da delícia e da dor de nossa vil existência. 



O luto é relativo e proporcional?

Deveria ser óbvia imbecilidade de se tecer estapafúrdios e inconcebíveis comparativos entre a pandemia e outras moléstias, mazelas ou problemas sociais (homicídios, acidentes de trânsito, denutrição, H1N1, SARS, dengue, malária, peste bubônica… a lista poderia continuar tal qual na música Pulso dos Titãs).

O comportamento dissimulado (não consigo conceber como sendo apenas estupidez, o que seria mais fácil de ser perdoado) pega não apenas pelo descaso (negacionismo tosco) mas pela mais ululante falta de rigor metodológico. Você compararia seus ganhos totais acumulados em 2 semanas de uma aplicação financeira com os rendimentos absolutos de outro investimento acumulado em todo o ano anterior? Obviamente que não, e esta é a má fé daqueles que “se esquecem” de estabelecer um recorte temporal adequado para comparar os dados da pandemia do Covid-19 com outras “causas mortis” já enraizadas e difundidas. Isso é negar a própria inteligência ao mostrar total descaso e desconhecimento da curva epidemiológica que, por seu caráter inicial exponencial (matemática básica do ensino médio) revela um agravamento mais severo à medida em que os casos se expandem (para além, portanto, das semanas iniciais).

Mas aos que preferem seguir no descrédito e na vergonha própria de ignorar estes princípios mais básicos a uma comparação justa, deixo algumas solicitações: 
  • Deixem então de se queixar e buscar soluções aos abomináveis homicídios. Eles retiram não mais que aproximadas 42.000 vidas em nossa nação.
  • Parem de clamar por cautela e direção segura. Foram “apenas”  5.332 corações que pararam de bater por acidentes de trânsito ano passado no Brasil. 
  • Não mais se oponha ao tabagismo. Mesmo sendo o principal fator de risco de morte por doenças crônicas não transmissíveis, o cigarro ceifa “tão somente” 156 mil vidas.
  • Não mais se solidarize com catástrofes aérea que matam comumente “somente” 300 pessoas.
  • Apenas volte sua atenção ao abominável comportamento de grupos de risco de doenças cardiovasculares. Afinal é esta a causa da despedida preponderante de morte para não menos de 18 milhões de pessoas ao ano (32,3% do total das mortes anuais).

Lembre-se de aplicar sempre seu princípio da proporcionalidade ao relativizar qualquer perda que corresponderá a apenas uma insignificante fração das 57 milhões mortes que temos ao ano (ou a mais uma ainda mais desprezível representatividade perante os 7.6 bilhões de seres que habitam este planeta). 

Faça-o lembrando do risco de disseminar desinformação, estando ciente de que o próprio HIV, antes de se disseminar por 75 milhões de pessoas no mundo, era considerada uma "doença de homossexual” que supostamente somente acometeria este grupo de risco.

Mas acima de tudo, lembre-se de fazê-lo sem deixar vestígios, antes que o lado exponencial da curva epidemiológica tome forma (incentivada inclusive por seu próprio clamor e total desconsideração à severidade do caso e das medidas protetivas). Seus argumentos logo perderão validade e você terá uma dose de cumplicidade quando as estatísticas se revelarem por completo.