sábado, 11 de abril de 2020

Amor superestimado amor


O poder da linguagem é forte. Na ficção “1984" alguns comportamentos humanos são tolhidos pela supressão de palavras no vernáculo, tornando algumas ações intraduzíveis e impensáveis, portanto inconcebíveis.

Já interpretado como “fogo que arde sem se ver”, “duas solidões protegendo-se uma à outra” ou simplesmente “um penetra na festa do destino”, o amor me parece sobrecarregado, trazendo amplitude demasiada de significado, peso e expectativa.

Tamanha responsabilidade atrelada a uma única palavra, ela se torna  um clichê que desperta ceticismo, paradoxalmente passando a muito pouco refletir na prática quando proferida. Passa a ser irmã gêmea de uma retumbante reticência. 

Tão vasto seu emprego e significado, banalizou-se, esvaziou-se tendo talvez nos tempos modernos mais efeito nas canções sertanejas de auto piedade. 

Onipresente nas menções mas pouco interpretado de fato na essência, quando tomado isoladamente parece carecer de complemento.

Sozinho portanto não basta e pouco explica, devendo ser substituído por várias dezenas de palavras mais específicas, quando não por ações que melhor traduzam o real sentimento.

Não só segundo a normal culta mas na prática e ao contrário do que sugere Mário de Andrade, amar tampouco parece de forma alguma ser “verbo intransitivo”, carece de complementação da explicação que vai muito além de apontar a pessoa amada como objeto direto.

O amor deve ter ainda seu significado combinado, ampliado, reduzido ou alterado, acompanhado de um adjunto adnominal ou colocado num devido contexto mais específico. 

Com isso eliminar-se-iam também os “diagnósticos” demasiadamente simplistas de que “falta amor”.

Mais preciso seria dizer que “o amor se foi junto aos últimos contos de réis” ou representa apenas "uma momentânea supressão à carência” ou quiça uma passageira "massagem à autoestima”.

Ainda que isso não pareça traga otimismo, parece  mais factível que uma pré anunciada falha de resgate aos valores do verdadeiro amor romântico dos versos, prosas e canções trovadorescas. 

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