Ainda meio adormecido e me preparando pela manhã para mais uma jornada (doméstica) de trabalho em meio à pandemia, abri meu guarda roupas e não pude deixar de reparar na quantidade de camisas, sapatos e calças que simplesmente deixei de utilizar nos últimos 2 meses quando o trabalho remoto começou.
Já havia tido este sentimento em outras ocasiões, como durante expedições de moto ou viagens mochileiras em que você aprende a ser minimalista levando consigo não mais que duas calças e 4 ou 5 camisetas para 30 dias de viagem. De todo modo, quando isso acontece por um período ainda mais prolongado e nas condições "normais" de temperatura e pressão (em uma rotina que embora esteja longe da normalidade, ao menos dialoga com algumas atividades mais corriqueiras).
Assim, para além dos aprendizados e simplificações mais óbvias (como as lições de que podemos poupar combustível e horas de trânsito ao simplesmente trabalhando remotamente em atividades que nunca de fato exigiram presença física), acredito que possamos extrapolar e melhor explorar algumas virtuosidades deste modelo a que fomos forçosamente submetidos (e que pode, afinal, trazer alguns ganhos a despeito dos óbvios infortúnios):
- como já citado, podemos economizar combustível evitar perder horas a fio no trânsito (levantamento da empresa Inrix - https://pt.euronews.com/2017/02/23/congestionamentos-de-transito-los-angeles-o-pesadelo-dos-condutores - revela que em média no Brasil foram perdidas 37 horas no trânsito, situação que é ainda mais drástica na cidade de São Paulo onde se perde aproximadamente 77horas comutando-se, com impacto de 156 bilhões no PIB - http://agencia.fapesp.br/brasil-perde-r-1562-bilhoes-do-pib-com-a-morosidade-do-transito-em-sao-paulo/21984/ ).
- quiçá sequer precisemos mais de um carro já que para saídas mais pontuais os transportes de aplicativos parecem ser uma solução muito mais inteligente (pensando no mundo pós vacina)
- conseguimos economizar ao reduzir as refeições fora de casa e, mais que isto, curtir um pouco de culinária, slow food e alimentações saudáveis
- talvez possamos aprender a cultivar hábitos mais saudáveis de entretenimento (leitura, música, filmes), fazendo as pazes com nossa própria companhia e reduzindo uma carência talvez excessiva e uma necessidade de passar noites à fio de bar em bar por aí (o que representa fazer as pazes com o sono, um modo de vida mais saudável e, claro, mais $$$ no bolso). Escrevi sobre isso em http://lucidez-insana.blogspot.com/2020/04/carencia-uma-comorbidade-deste.html
- menos necessidade de roupas, acessórios já que deixamos de nos "pavonear" pelos escritórios.
Eu poderia prosseguir com a lista mas acredito que o ponto ficou claro que o aprendizado e ganho vai além apenas da perspectiva financeira, sendo que uma vida moderadamente mais introspectiva e reclusa (obviamente não ao ponto do isolamento total a que fomos submetidos) pode trazer alguns outros ganhos pessoais (equilíbrio emocional, saúde e qualidade de vida), restringindo até mesmo o consumismo desenfreado que se tornou premente já há décadas.
Em outras palavras, uma racionalização do consumo individual poderia trazer transformações sensíveis em duas diferentes instâncias:
- Da perspectiva pessoal seria possível uma reorientação e ressignificação de valores, com melhoria inclusive da qualidade de vida. Não só por experiência própria mas também com base em casos compartilhados por amigos, explicitou-se o potencial de economia potencialmente obtida apenas restringindo algumas despesas supérfluas (cafezinhos, almoços mais constantes fora de casa, consumo desnecessário de artigos que não precisamos).
- Do ponto de vista dos impactos agregados (à economia como um todo), a reflexão é mais complexa, exigindo uma restruturação do sistema produtivo calcado no consumo de massa. Nos últimos 2 meses tivemos um exemplo esdrúxulo dos impactos de uma restrição do consumo para o emprego e renda agregados. Obviamente trata-se de uma “simulação imperfeita” já que não se tratou de uma mudança gradual e ponderada, mas de uma frenagem brusca com a paralização abrupta e extremada do consumo. Ademais, grande parte do consumo é pautado em expectativas, e diante da incerteza imposta pelo cenário atual, o impacto da pandemia é ainda mais estridente sobre o consumo (ou, posto de outro modo, mesmo aqueles que mantém condições de consumo restringem seus dispêndios por prudência).
Repensar o consumo e as cadeias de produção de forma a permitir uma acomodação sustentável do emprego e mais equânime distribuição da renda obviamente traz um desafio mais profundo de transformação já que todo nosso sistema produtivo está fundado na constante expansão do mercado consumidor para absorver uma crescente quantidade de produtos (incluindo muita tralha inútil e desnecessária) que é cuspida a um ritmo alucinante pelas fábricas. Culpa ou, melhor dizendo, efeito colateral da industrialização e produção em massa como já há muito sabido.
Esta complexa transformação (ruptura de todo um paradigma econômico produtivo) permitiria um "novo normal" que infelizmente poucos estão dispostos a pensar. Talvez seja este então um momento oportuno para pensar mudanças mais positivas no modelo atual, o qual já vem dando há algum tempo sinais de cansaço (crises), mas continua persistentemente sendo remendado e tocado adiante frente uma "teimosia gananciosa” dos privilegiados por este sistema, perpetuando sua inerente insustentabilidade social e ambiental.


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