sábado, 11 de abril de 2020

Nossas perdas

Perder alguém é readaptar-se à companhia de si próprio (ou talvez à de outrem).

É experimentar o amargo vácuo dos momentos que não mais serão divididos.

É enxergar e sentir o cheiro daquele que se foi ao se fechar os olhos.

É ter nos cômodos um rastro fantasma das memórias ali vividas.

É virar as páginas mas se deparar com  as mesmas histórias cravadas no imaginário.

É viver a modernidade líquida e entender que somos perecíveis na vida do outro.

É dar-se conta de que estamos habituados à inércia, sendo qualquer mudança sempre tida com relutância como um corpo estranho.

É um sinal de que nós prosseguimos ainda que aos pedaços.

É também sobreviver, ainda que tentando recuperar o sentido de viver.

É permitir se reinventar. 

É parte indissociável da delícia e da dor de nossa vil existência. 



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