sábado, 11 de abril de 2020

O luto é relativo e proporcional?

Deveria ser óbvia imbecilidade de se tecer estapafúrdios e inconcebíveis comparativos entre a pandemia e outras moléstias, mazelas ou problemas sociais (homicídios, acidentes de trânsito, denutrição, H1N1, SARS, dengue, malária, peste bubônica… a lista poderia continuar tal qual na música Pulso dos Titãs).

O comportamento dissimulado (não consigo conceber como sendo apenas estupidez, o que seria mais fácil de ser perdoado) pega não apenas pelo descaso (negacionismo tosco) mas pela mais ululante falta de rigor metodológico. Você compararia seus ganhos totais acumulados em 2 semanas de uma aplicação financeira com os rendimentos absolutos de outro investimento acumulado em todo o ano anterior? Obviamente que não, e esta é a má fé daqueles que “se esquecem” de estabelecer um recorte temporal adequado para comparar os dados da pandemia do Covid-19 com outras “causas mortis” já enraizadas e difundidas. Isso é negar a própria inteligência ao mostrar total descaso e desconhecimento da curva epidemiológica que, por seu caráter inicial exponencial (matemática básica do ensino médio) revela um agravamento mais severo à medida em que os casos se expandem (para além, portanto, das semanas iniciais).

Mas aos que preferem seguir no descrédito e na vergonha própria de ignorar estes princípios mais básicos a uma comparação justa, deixo algumas solicitações: 
  • Deixem então de se queixar e buscar soluções aos abomináveis homicídios. Eles retiram não mais que aproximadas 42.000 vidas em nossa nação.
  • Parem de clamar por cautela e direção segura. Foram “apenas”  5.332 corações que pararam de bater por acidentes de trânsito ano passado no Brasil. 
  • Não mais se oponha ao tabagismo. Mesmo sendo o principal fator de risco de morte por doenças crônicas não transmissíveis, o cigarro ceifa “tão somente” 156 mil vidas.
  • Não mais se solidarize com catástrofes aérea que matam comumente “somente” 300 pessoas.
  • Apenas volte sua atenção ao abominável comportamento de grupos de risco de doenças cardiovasculares. Afinal é esta a causa da despedida preponderante de morte para não menos de 18 milhões de pessoas ao ano (32,3% do total das mortes anuais).

Lembre-se de aplicar sempre seu princípio da proporcionalidade ao relativizar qualquer perda que corresponderá a apenas uma insignificante fração das 57 milhões mortes que temos ao ano (ou a mais uma ainda mais desprezível representatividade perante os 7.6 bilhões de seres que habitam este planeta). 

Faça-o lembrando do risco de disseminar desinformação, estando ciente de que o próprio HIV, antes de se disseminar por 75 milhões de pessoas no mundo, era considerada uma "doença de homossexual” que supostamente somente acometeria este grupo de risco.

Mas acima de tudo, lembre-se de fazê-lo sem deixar vestígios, antes que o lado exponencial da curva epidemiológica tome forma (incentivada inclusive por seu próprio clamor e total desconsideração à severidade do caso e das medidas protetivas). Seus argumentos logo perderão validade e você terá uma dose de cumplicidade quando as estatísticas se revelarem por completo. 




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