Já diria o chavão que “a ignorância é uma benção”. Ainda que obviamente no geral isso não seja tão verdadeiro, a assertiva é coerente da perspectiva de que pessoas que se dispõem a refletir ou questionar menos aparentemente conseguem deleitar-se com o movimento dos ponteiros sem se incomodar ou questionar a sincronicidade do mecanismo que os move. Já diria meu colega que quem é superficial pega a sopa morna por cima sem queimar a boca com o líquido quente que está na camada de baixo. Ainda sim, também é verdade que com esta superficialidade (ou medo) deixe-se de consumir todo o conteúdo do prato.
De uma forma ou de outra a humanidade parece inconscientemente confirmar isso, afinal a maioria prefere o conforto de acreditar nos "contos de fadas" e "figuras mitológicas” das soluções simples para problemas complexos vendidas como um “fast food” enlatado e empurrado goela abaixo com muita maestria e perspicácia por indivíduos, empresas e políticos oportunistas de plantão. Afinal, para que fazer uma reeducação alimentar, privar-se dos prazeres dos açúcares, gastar horas no mercado e fogão para preparar alimentos saudáveis, literalmente transpirar com exercícios cardio e investir horas na academia se uma nova dieta, treinamento ou equipamento milagroso promete resultados rápidos? Para que ler um livro, estudar um tema se um Meme ou um vídeo de 1 minuto supostamente traduz toda a complexidade da matéria? Soluções simplistas (de fácil disseminação e entendimento) mas de falsa eficácia e sustentabilidade são atrativas justamente por serem apresentadas como algo de fácil acesso e baixo esforço.
Nelson Rodrigues com sua perspicaz acidez já diria que “a unanimidade é burra” e por extensão acredito que possamos dizer que tudo o que é amplamente aceito é no mínimo suspeito.
A própria ciência é comumente incompreendida e criticada por nobremente não ser taxativa e normativa, não ousando possuir soluções definitivas. Ao contrário disso, ela se limita a se aceitar apenas como um “estado provisório da verdade”.
Einstein a definiria humildemente como o “estado atual de nossos erros” já admitindo o caráter transitório das postulações e teorias hoje aceitas. Trata-se de aceitar que o mundo é uma evolução constante e o que simplificadamente chamamos de “verdade” é na verdade uma construção contínua, e não uma verdades absoluta (perspectiva bem próxima à proposta da crítica imanente proposta pela Teoria Crítica ou pela Escola de Frankfurt).
Talvez por isso tanto as carreiras como a pesquisa científica estejam infelizmente tão acanhadas nos dias de hoje em comparação aos consultores/agências/palestrantes/gurus/coaches de pensamentos “revolucionários" que geralmente podem ser simplificados em “5 ou 7 lições ou passos” para preencher alguns capítulos e emplacar mais um "best seller", seja nas prateleiras de auto ajuda, na sessão das estratégias de negócios ou gestão, no vídeo de youtube, meme ou orientação do coach mais próximo.
Há algum tempo (infelizmente de forma não tão proeminente ou difundida) propõe-se inclusive o termo normose como alcunha para esta “doença de ser normal“, ou seja, de não questionar as premissas, de não se pensar criticamente. Trata-se na verdade apenas de uma nova roupagem à “banalidade do mal” há mais de 50 anos preconizada por Hanna Arendt ao identificar que muitas vezes o comportamento doentio e cruel humano (e ela se referia às ações de oficiais Nazistas nos campos de concentração) está em justamente obedecer cegamente sem questionar, sem dispor de um olhar mais crítico. Vale lembrar que no passado se aceitava até que se lançassem pessoas à fogueira simplesmente por ser “normal” aceitar aquilo que era dogmaticamente postulado pela Igreja.
Em um mundo “geração prozac” em que as pessoas se encantam pela ideia de pílulas mágicas e balas de prata que funcionam como uma solução geral para todos os males, a normose ou “banalidade do mal” persiste sendo esta falta de questionamento em uma adesão apressada de novas soluções enlatadas.
Falo a língua dos loucos pois já não me conformo com a mordida coerência dos lúcidos
Fernando Pessoa

Nenhum comentário:
Postar um comentário