Nossa empresa não tem sido muito inovadora mas a solução está clara: vamos colorir as paredes do escritório que agora chamamos de studio, empregar hipsters descolados para fazer um “user research” e encher a “project room” de post its em um workshop de cocriação que chamaremos de hackaton.
Quando ainda na universidade fui agraciado por ter já pelos idos do 7o semestre, em meio as créditos de filosofia, ciência política e história da arte, a disciplina de administração de empresas ministrada de forma diferenciada, embebida em uma imersão humanista e reflexiva.
Ao invés de simplesmente se propor a apresentar de forma instrumental os conceitos, a professora se incumbia em estimular uma visão crítica às escolas de gestão que, ao longo do desenvolvimento industrial, ditaram (e ainda o fazem) sucessivos “modismos” que são engolidos pelas empresas sem um raciocínio mais crítico.
Tornava-se assim possível desmistificar e desconstruir inúmeros gurus e enxergar, por trás de sua pompa, pessoas espertas o suficiente para criar/antecipar tendências e “engarrafá-las” em livros, artigos, palestras e consultorias que acabam por encher os próprios bolsos sem necessariamente trazer proporcional ganho àqueles que tais medidas adotam.
Obviamente há mentes brilhantes e muita virtuosidades em diversas estratégias corporativas, mas observando alguns casos e comportamentos chego a pensar se o processo evolutivo das espécies não fez uma concessão fazendo com que o homo sapiens retrocedesse com a subespécie do homo corporativus limitadus, aquele que com os muitos estrangeirismos empregados em sua fala (afinal, por que conjugar o verbo “iniciar" se pode dizer “startar”) se gaba de seu pragmatismo e suas falas objetivas e decisões. Pouco importa se muitas destas são tomadas apressadamente e de forma infundada, apenas não sendo explicitamente questionadas em virtude do jogo hierárquico e político de poder. Neste sentido sempre achei a o termo “executivo” de certa forma pejorativo parecendo existir uma nova divisão de tarefas pós moderna em que há “os que pensam” e "os que executam” (analogamente à idade média em que haviam aqueles que guerreavam, os que trabalhavam e os que rezavam). Como figuras desta espécie estão entre nós nos corredores corporativos, cenas atordoantes como as do vídeo abaixo não são mera coincidência.
Tampouco estou aqui negando pontos positivos e virtuosos trazidos por várias escolas administrativas, ferramentas e modelos de gestão, mas deixo minha crítica à adesão cega e indiscriminada aos mesmos (como em um comportamento de manada). Adesão esta comumente à revelia de muito o que vem sido estudado pela academia, ciência, biografias diversas, estatísticas e mesmo senso comum. Pega-se alguns casos fora da curva como exemplos e da exceção se cria uma regra, transformando as empresas num parque de diversões para consultores (agora agências de inovação ou design researchers). De súbito abandona-se até mesmo conceitos estruturais de um negócio simplesmente porque o mercado ou a concorrência está pregando uma nova corrente. E não raras vezes há com isso a destruição de valores e diferenciais estratégicos (a reengenharia talvez tenha sido um dos exemplos mais nefastos disso). Literalmente à esteira da produção de massa de Ford todos são lançados à linha de produção móvel. Com Sloan lançam-se à customização de massa. Anos mais tarde torna-se imprescindível disseminar pelos quatro cantos os preceitos da TQM (Total Quality Management - Gestão da Qualidade Total).
Agora a palavra da ordem é inovação, a bala de prata ou pílula mágica que vai transformar todos os negócios. Apressadamente “descobriu-se” que o que nos torna criativos é usar roupas descoladas e casuais (a versão corporativa do hipster lenhador com coque samurai, em bônus especial à adoção de adereços de Star Wars, sapatênis e moletom), multiplicar o faturamento da 3M usando toneladas de Post It, reformar os escritórios adotando um colorido quase cafona, rechear espaços compartilhados com móveis desconfortáveis, pouco práticos e sem ergonomia (odiados pela maioria dos colaboradores como revelado nas pesquisas e rodas de café). O que importa é parecer cool e passar a se comportar como uma startup!
Todos sabemos e já se tornou clichê dizer que que nas últimas décadas empresas criadas por jovens universitários em garagens do vale do silício surgiram do nada com poucos recursos e desafiaram impérios estabelecidos (Apple versus IBM para ficar num exemplo igualmente clichê). Acontece que na maioria das vezes as análises superficiais (seja na pressa por adesão e apresentação de medidas nas empresas, seja pelo oportunismo ávido dos gurus, autores e consultores) ignorando-se pontos mais profundos que realmente me parecem ser mais determinantes ao sucesso, tais como:
- o sistema de educação superior nas regiões em que tais empresas surgiram. Mesmo aqueles que abandonaram os estudos universitários puderam contar com uma formação de base diferenciada e mão de obra qualificada, como por exemplo programadores experientes. Mais que isto, além da edução “formal”, linguagens de programação, kits de desenvolvedores já estavam disseminados no país, estimulando a “criatividade para além do post it".
- os contatos (networking para ficar no jargão corporativo) propiciados nos campi das grandes universidades (garantindo mais fácil acesso não apenas a mentes brilhantes para incorporarem as posições de trabalho, mas parcerias e fontes de financiamento)
- recursos disponíveis de forma acessível (maquinários, peças, matérias prima e $$$)
- proximidade às matrizes de grandes empresas e centros de pesquisas para parcerias, acesso a mercados
- cultura empreendedora (pouca burocracia, baixos custos e simplificação tributária para um novo negócio)
- o próprio amplo acesso às tecnologias da atual “era industrial” , sendo que os EUA (e em especial os centros universitários de ponta do país) se aproveitaram da vanguarda tecnológica para disseminar plataformas (computadores, celulares, arduinos, etc) que propiciariam o rápido desenvolvimento de soluções por curiosos jovens igualmente “fuçados”.
Mas claro que ao invés de se atentar a estes pontos (que demandariam uma reestruturação mais profunda e de longo prazo não só no âmbito da empresa mas em toda a estrutura nacional de educação, tributação, estrutura industrial, adoção, disseminação e subsídio tecnológico para ficar em alguns exemplos) é mais fácil notar “padrões tocos”, simplistas, facilmente replicáveis e irrelevantes como:
- os jovens fundadores das startups usavam moletons e sapatênis (pela pouca grana e/ou por ser simplesmente típico da faixa etária e vestuário daquela região)
- estas pessoas se aglomeravam em mesas pequenas sem divisórias (normalmente a mesa de jantar dada falta de disponibilidade ou vontade de se investir inicialmente em mobiliário mais adequado)
- muitas vezes os escritórios ou estações de trabalho eram compartilhados com outras empresas (mais uma vez, em grande parte em virtude da pouca disponibilidade financeira, ou dos “coworkings naturais” nas moradias compartilhadas)
Além da indumentária (paradoxalmente um fashionismo em si, embora travestido em uma tentativa de parecer casual), o vocabulário dos “gurus da inovação" de hoje revela um “parnasianismo rebuscado” que vai além dos neologismos e estrangeirismos corporativos comuns: as reuniões passam a ser impreterivelmente tomadas por uma chuva de chavões (buzzwords) que mais parece ter sido expelida por um "gerador de lero-lero” da internet. Sim, os descolados novos inovadores tem sempre que falar de redes neurais, fractais, singularidade, deep learning, blockchain e alimentação orgânica, ainda que muitos destes nunca tenham se aprofundado no tema com uma leitura que vá além das definições mais básicas (e nem sempre corretas) do verbete.
A cartilha doutrinador à grande corporação não para por aí: são também trazidos “novos” processos (muitos dos quais na verdade são apenas novas roupagens a velhos conceitos que de fato estavam meio esquecidos, como que em uma retomada da moda dos óculos de grandes lentes em armações estilo aviador depois de alguns anos)). Quase como que um esquadrão da moda 2.0, consultores oportunistas dão um banho se “loja” a estes traços e, voilá, tem-se então as “metodologias de boutique” prontas para serem vendidas por agências ao gestor corporativo mais desesperado ou ávido por “vender” algo novo para seus superiores.
Tais metodologias ganham alcunhas pomposas e “inovadoras”. Se antes fazer um workshop era a coisa certa diante de um desafio (vulgo: o gestor não tem ideia do que fazer e logo propõe um workshop para “socializar” o problema e se esquivar de tomar sozinho uma decisão), agora para questões mais complexas surgiram os “grand prix de inovação” ou “hackatons” em que mais uma vez toneladas de post it são usados por vários times que se dispõem em desafios de algumas horas ou dias para chegar a soluções mais ou menos óbvias que o senso comum de alguém com boa vontade e iniciado na área chegaria talvez com menos esforço e recursos investidos. Não raras vezes as propostas ali geradas acabam sendo superficiais e apresentando fragilidades que as inviabilizam de ser levadas adiante, mas nada disso importa já que é algo “cool” que todas as empresas descoladas estão fazendo (então fazê-lo pode até gerar uma promoção aos seus idealizadores “vanguardistas” ou, melhor seria dizer, “plagiadores/copistas").
É um esforço válido no sentido de buscar colaboração, coesão, fazendo com que as ideias criadas nestas dinâmicas em geral acabem tendo a “paternidade” de todos os participantes (gerando uma certa sensação de pertencimento, espírito de dono), constituindo também uma interessante dinâmica para envolver pessoas externas à empresa (inovação aberta) e inegavelmente uma boa jogada de relações públicas. Questiono todavia a efetividade de tais dinâmicas para a real construção.
Em tempo, a despeito da acidez propositalmente acidez do texto, convém deixar aqui algumas ressalvas tomadas com base em nada mais que minhas convicções pessoais:
- De fato a academia em diversas vezes peca por ser demasiadamente pouco pragmática ou prolixa, falhando em melhor dialogar com o público em geral (e com o mercado), tornando-se muito restrita aos acadêmicos e deixando de se fazer acessível a um público mais amplo. Isso amplia a distância entre academia e empresa principalmente no Brasil.
- Como colocado no próprio texto, muitas das “provocações” que geraram revolução nas empresas deixaram um levado positivo. A própria abordagem mais flexível e informal atual simplificou e agilizou muitos processos de gestão e decisão corporativa.
O problema reside, no meu ponto de vista, na absorção apressada (quase desesperada) de conceitos sem uma reflexão mais ponderada que simplesmente abraça qualquer nova tendência, ainda que isso seja ancorado em boas intenções tais como a busca de maior competitividade ou a própria tentativa pessoal de ascender profissionalmente (ao se colocar na vanguarda e mostrar conexão com as novas tendências). Por diversas vezes emprega-se apenas os modismos mais estéticos sem buscar uma transformação mais efetiva na essência (o que obviamente vai muito além de paredes coloridas, “uniformes” descolados e “acessórios Star Wars”, exigindo exige mudança de cultura e processos até a alta liderança). Em outros casos, acaba-se com isso tentando forçar uma importação de conceitos de certo modo incompatível com os valores e práticas de determinado negócio ou com a realidade da grande empresa como um todo, somente para tentar seguir as tendências dos paradigmas competitivos mais disseminados no momento (ou mainstream para ficar no estrangeirismo típico). Recentemente estive em uma conversa com investidores de startups e quando questionado sobre programas de empreendedorismo que buscam recriar a lógica de startups nas empresas Eric Archer (da empresa de venture capital Monashees) foi categórico ao dizer que “se o empreendedor não tem participação acionária no negócio e tampouco liberdade de ação você não tem startups corporativas nem venture building, você tem apenas projetos corporativos”.
Penso assim ser bastante válido inspirar-se em novas propostas e mesmo buscar referências de outros mercados ou práticas (importando conceitos de estratégia militar, dinâmica de jogos, esportes, conceitos de hobbies variados, etc). Mas isso requer certo cuidado para não se forçar uma aceitação automática, sem filtro e forçosa. Fazê-lo é a antítese do pensamento crítico em uma perigosa atração à simplificação apressada (veja meu post sobre este tema em http://lucidez-insana.blogspot.com/2020/06/o-perigoso-e-atrativo-conforto-do.html).

Muito bom o texto. Concordo com a visão. O objetivo e a estratégia da empresa deve estar a frente de qualquer modismo, as ferramentas são apenas o meio, porém nunca devem ser o fim.
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