terça-feira, 7 de abril de 2020

Lições de minha experiência no exterior para a quarentena do Covid 19 (Coronavírus)

Depois de algum tempo recebendo comentários de amigos mais próximos de certo modo espantados com a forma razoavelmente leve (dentro do possível) com que tenho passado as últimas semanas, compartilho aqui um pouco do que tem sido meu dia a dia. 

Já me antecipo ao deixar um sonoro “não” alertando que que isso de forma alguma reflete uma "prescrição de uso geral” já que acredito na complexa individualidade de cada qual, sendo portanto cético ao receituário de “balas de prata”. Também vale constatar de início que me considero de fato um afortunado por estar passando o momento atual em condições pelas quais sou muito grato. Não sou hipócrita e estou longe de pensar que todos têm condições de igualdade neste momento e me entristeço por isso. 

De todo modo, fica a confissão de que a despeito de algumas “benesses”, trago também dúvidas, incertezas e inquietações de alguém que está a mais de 6000 km de casa, da família e de amigos (voltarei a este ponto em algumas linhas), incluindo aí seus pais de mais de 70 anos que vivem sozinhos (e dependem sobretudo da renda de aluguéis). É também este mesmo alguém que, como trabalhador assalariado, mesmo sendo feliz de ter seu emprego mantido e de estar operando remotamente por estes tempos, já viu amigos tendo salários cortados e colegas da mesma empresa tendo férias compulsórias ou afastamentos decretados. Se temer é ter consciência dos fatos e se sentir medo é algo que foge ao nosso controle, acredito que ao menos podemos definir a atitude que teremos diante de nossos temores. 

Acreditando haver verdade no bordão que prega haver grandes aprendizados em períodos de dificuldade (para além da zona de conforto), tenho tido em minha recente (e ainda em curso) experiência internacional grandes aprendizados que levarei para a vida. E mais que pregar algum tipo tosco de “darwinismo social” da sobrevivência dos mais aptos ao isolamento, trago alguns aprendizados de minha vivência em uma realidade diferente (no exterior) que estou aplicando a este outro modo de vida singular (quarentena).Acreditando haver verdade no bordão que prega haver grandes aprendizados em períodos de dificuldade (para além da zona de conforto), tenho tido em minha recente (e ainda em curso) experiência internacional grandes aprendizados que levarei para a vida. E mais que pregar algum tipo tosco de “darwinismo social” da sobrevivência dos mais aptos ao isolamento, trago alguns aprendizados de minha vivência em uma realidade diferente (no exterior) que estou aplicando a este outro modo de vida singular (quarentena).

Assim, a despeito das naturais diferenças, sei que colegas têm condições semelhantes (de estilo de vida e também no que tange aos receios) e apenas compartilho aqui então alguns pensamentos, práticas e hábitos pessoais que vem me ajudando neste “estado de exceção", na esperança de que isso poça eventualmente fazer sentido para mais alguém. 


Parte 1: meu modo de ver a vida (pré apocalipse, ou melhor, pré Covid)

"Conhece-te a ti mesmo” 
Aforisma socrático grego

Dada a ressalva inicial da particularidade de cada qual, acho que vale então iniciar esta reflexão trazendo um pouco de meu próprio contexto, afinal, mesmo em uma realidade diferente, carregamos conosco toda uma bagagem que seguimos desde sempre moldando. Quero dizer com isso algo fundamental de se entender: todos temos uma identidade, perfis comportamentais e valores bastante singulares, os quais não deixam de existir e tampouco são padronizado de súbito somente porque somos impostos a uma mesma realidade. Logo, a forma diferente como enfrentamos estas situações tem como base algo que construímos ao longo de toda uma vivência. 

De uma forma breve e geral (para não tornar isso muito monótono nem transformar o relato numa autobiografia), sempre fui uma pessoa mais independente que por vezes até mesmo “driblava” eventos de amigos e convites para “se aventurar” na incerteza do novo (seja ele numa viagem de final de semana, em semanas vagando por outros países ou até mesmo numa noitada em “carreira solo”). Solteiro (e bem resolvido de forma convicta com isso, ainda que sempre aberto à possibilidade de mudar de opinião), sem descendentes trazidos ao mundo, seguia nos últimos anos desafiando as “tríades da vida ou da felicidade” do tipo “construir uma casa, plantar uma árvore e ter um filho” ou “estudar, trabalhar, morrer”, tampouco possuindo aspirações que restrinjam a definição de sucesso pessoal a um simples final nonsense (apesar de elegante) do tipo “virar CEO”.

Há aproximadamente 4 anos, a suspeita de um tumor ósseo que podia ter me custado a vida (e que por forças miraculosamente sobrenaturais, desapareceu sem que sequer tenham conseguido fazer diagnóstico preciso, despedindo-se da mesma forma inexplorada como surgiu e obviamente saindo de cena sem deixar saudade) catalisou este ímpeto explorador que já vivia em mim. Com ainda mais voracidade lancei-me como viajante no mundo das ideias (talvez mais conhecido como “filósofo de boteco”) e também inquieto pelos 4 cantos do mundo, tornando-me ainda um colecionador de hobbies que venham a me agregar aprendizados e experiências (mergulho, skydiving, fotografia, jiu-jitsu, boxe, mecânica, motociclismo, leitura, música, coletâneas de esboços de pensamentos em forma de agrupamentos de palavras, etc). Foi a partir daí que vieram expedições longas (15.000 ou 20.000km) sobre duas rodas por toda América Latina (com milhas acumuladas também nas divagações dentro do capacete), e noitadas não menos interessantes com tipos e figuras peculiares.

Com isso dá pra perceber que nunca tive necessariamente problemas em ficar sozinho mas que a reclusão física/geográfica acaba sendo de certa forma um castigo a quem tem tanto apreço pela liberdade, viagens sem destino e atividades ao ar livre (afinal, historicamente a privação da mobilidade e o isolamento sempre foram formas de imposição de sentenças).

Antes de ser comparado a um Bukowski burlesco (apesar da óbvia distinção da carência do refino ácido em minha escrita) ou acusado de misantropo, confesso que sou sociável e até tolerável (ao menos por algumas horas/dias/meses) mesmo nas noites de abstinência etílica. Apenas me tornei um colecionador de histórias próprias, tornando-se adicto ao sabor da incerteza que cada vez mais toma o lugar do conforto morno e insosso da segurança. Um artista sem grandes aptidões ou aspirações, mas ainda assim insaciável à procura de uma nova arte; um amante da liberdade convicto de que a própria busca insaciável por esta já é em si uma forma de cárcere; ou talvez apenas um pessoa tentando aproveitar as delícias das sinuosas na estrada (seguindo a sugestão de não deixar também de aproveitar a estrada antes da curva, como na versão de Carpe Diem de Fernando Pessoa).


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)



Parte 2: Lições da minha experiência internacional (reaprendizado diante do isolamento diante da multidão)

Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.
Carlos Drummonde Andrade, A Bruxa

Eis que a despeito todo todo este “culto ao novo”, desperto-me confessadamente aflito em território novo com um inquietante vazio existencial. Recentemente me Mudei de país, tendo pela segunda fez na vida que me adaptar a uma nova realidade (a primeira vez foi quando deixei de ser um pseudo rapaz do campo ao sair de uma “tribo” de 40.000 habitantes no interior do Paraná para começar uma vida nova em uma das maiores cidades do país, com mais de 1 milhão de seres viventes). 

Do alto de meu ego, desdenhei inclusive orientações de psicólogos profissionais (focados em processos de expatriação) ao dizer a mim mesmo que “aquilo não era para mim já que eu já estava mais acostumado à vida livre, independente e desimpedida”. E foi assim que, iludido pelo por pretensos super poderes (conferidos pelos anos de incursões solitárias mundo afora ou cabeça adentro) de sobrevivência solitária (sugeridos inclusive por vários de meus melhores amigos), fui desafiado por uma dolorosa “nova gestação” que apenas agora, após quase 9 meses da nova realidade, parece estar tomando uma forma mais definida e sustentável. 

Para além dos desafios óbvios do início de uma nova vida e da necessidade de reinvenção frente à perda das referências anteriores (família, amigos, lar, costumes, cultura) e das burocracias iniciais (visto, busca por moradia, mobília, veículo, processos corporativos, obtenção de documentos básicos e o cansaço até mesmo para se encontrar o tipo/marca de arroz adequado às 23h depois de um dia cheio) vieram decepções. Sim, a distância incumbiu-se de revelar a superficialidade de relações que se mostravam próximas daqueles que se despediram com lágrimas acompanhadas de tradicionais clichês do tipo “nunca vou te esquecer”, "estarei sempre aqui pra você” e "pode contar comigo quando precisar”. Mas ao mesmo tempo em que tais palavras proferidas por alguns se desmanchavam no ar, a mesma distância também trouxe verdades apaziguadoras: a proximidade e a a solidez de relacionamentos que ficavam ainda mais intensos a despeito dos quilômetros que nos afastavam. A intensidade de cada “bom dia”, brincadeiras, confissões, fotos e infindáveis playlists trocadas vem trazendo um sabor agridoce ao ampliar a saudade ao mesmo tempo em que traziam conforto. Então para mim uma primeira lição neste sentido seria "aproximar-se na distância” e aproveitar para dar um abraço (ainda que virtual) naqueles que se mantém contigo nestes momentos.

Vejo que a sociedade (e as áreas de recursos humanos de empresas) conferem um valor extremo à “experiências internacionais”. Sempre questionei a validade disso já que tais experiências podem muito variar de pessoa para pessoa, além do que há várias outras experiências igualmente (ou mais) valiosas que não se materializam necessariamente na saída de seu país natal. De todo modo, agora que estou vivendo na pele isso posso dizer que mais que simplesmente os desafios mais explícitos (culturais, idiomáticos, de trabalho), trata-se também de entrar em um “mundo paralelo” em que sobretudo aprendermos sobre nós mesmos. Como ouvi num dia desses, é no silêncio da solidão que passamos a melhor ouvir nossa própria voz.

A beleza está nisso: reencontrar-se, redescobrir-se. Não estou tentando poetizar um momento que é sabidamente trágico, mas sugerir que tenhamos plasticidade neural suficiente para melhor nos adequarmos à situação. Sim, a raça humana tem uma grande capacidade de adaptação. Estamos vivendo em um momento ímpar na sociedade moderna mas outras crises já foram superadas num passado mais próximo ou remoto. E não me refiro aqui somente a outras comumente evocadas epidemias como a Gripe Espanhola (ou mesmo a Peste Negra) que assolaram um mundo muito mais desconectado (da perspectiva de meios de comunicação) em que o contato humano era inevitável. Penso também no quase um ano que Londres se viu cercada pela Luftwaffe, nas décadas em que Berlin Ocidental ficou segregada do mundo (exceto pelas rotas aéreas) ou ainda por menos conhecidos cercos medievais tais como o de Cândia ou de Ceuta. Isso para não mencionar os horrores do verdadeiro isolamento em seu “anexo” que uma garota judia chamada Anne Frank narrou em seu diário (mais tarde transformado no hoje conhecido livro) enquanto escondida com sua família das tropas nazistas.

Obviamente que a ciência de outros períodos de dificuldade não minimizam nossa angústia agora. Mais tal como numa mudança, aprendi que em momentos assim mais vale encarar os fatos mudando a perspectiva. Trata-se de “vestir a camisa” de que uma nova realidade está imposta (ao menos temporariamente) e que não adianta seguir adiante apenas olhando no retrovisor, ou seja, tem-se que tirar um pouco do foco daquilo que ficou pra trás, da realidade que (ao menos temporariamente) já não existe mais. A economia não é a mesma, as relações não são as mesmas e isto é um fato. Ainda que não estivéssemos de quarentena, enquanto os riscos (de saúde e também econômicos) não forem domados (sendo que o adestramento completo somente se dará por uma vacina), de nada adiantaria tentar retomar de força forçosa e errática a vida normal. As bolsas não se acomodariam e tampouco nós mesmos estaríamos confortáveis a fazer comprometimentos financeiros maiores e de mais longo prazo (financiamento de um novo imóvel ou carro por exemplo), seguindo provavelmente incomodados diante de qualquer perspectiva de aglomeração (bares, aviões cheios, viagens, etc). 

Quando me mudei para a Flórida, sentia muita falta das noitadas brasileiras, festas, viagens de moto por cidadezinhas de MG, encontros com amigos e churrascos. Percebi então que seria uma insanidade e um desperdício ficar me atendo às coisas que deixei para trás, afinal, se decidi me mudar para ter uma experiência nova, não faria sentido ficar tentando encontrar por aqui os “velhos” padrões e costumes, por mais confortáveis que eles fossem. Com o tempo aprendi então a deixar de lado o que perdi e mergulhar na experiência nova que estava tendo. Extraio disso então três outras lições: 
  1. Ser otimista mesmo em cenários pouco prováveis: minha professora do ensino médio dizia que enquanto o pessimista olha para uma rosa e diz que a vida é tortuosa já que até as mais belas flores geram pontiagudos espinhos que causam dor, o otimista olha para aquela mesma roda e diz que a vida é bela já que até mesmo os mais traiçoeiros espinhos são capazes de gerar as mais lindas rosas. Quando assumi que estava vivendo em outra realidade e que não teria nos próximos meses/anos alguns dos antigos confortos, tudo ficou mais fácil. Optei por abraçar a mudança e tentar extrair dela o melhor, a despeito das dificuldades que não cessariam. Passei a focar mais nas oportunidades que se abriram que nas portas que se fecharam. Estou consciente do tamanho do problema (saúde pública, economia, para não falar na loucura que virou a política) e não estou tentando “romantizar” o período atual, mas apenas tentar fazer o mesmo e ver as possibilidades que se abriram: pude cortar alguns custos (saídas, combustível, alimentação fora de casa); eliminei uma hora ao dia outrora perdida com deslocamento; substituí os treinos na academia por atividades ao ar livre; pude me aproximar / reaproximar de algumas pessoas, etc.
  2. E isso me leva à segunda lição: buscar novas referências (de portos seguros a simples distrações à mente). Iniciando minha nova vida nos Estados Unidos, ao invés de me lançar loucamente a noitadas nos clubes de música eletrônica ou latina, regados por ostentação que permeiam Miami (o que não faz meu estilo), optei por adquirir hábitos mais diurnos, ampliando meu autoconhecimento e cultivando novos hobbies (ou retomando alguns há algum tempo deixados de lado). Voltei a estar em maior consciência com meu corpo, dedicando mais tempo a atividades físicas (ainda que eu não tivesse de fato me afastado por completo delas nos últimos tempos). Também fiz as pazes com o fogão e voltei a curtir as visitas ao supermercado e práticas de culinária saudável em casa (sim, em plena terra do hambúrguer). Como resultado, não apenas redescobri paixões (corrida, tênis) como me mantenho com 8 a menos do que possuía nos últimos anos no Brasil. Com a vida noturna também se foram boas doses etílicas (ainda que você consuma álcool moderadamente, se você tem uma vida ativa por diversos dias na semana acaba ingerindo uma quantidade significante de fermentados e destilados ao final do mês, o que não é nada legal) e principalmente a compulsão pelo "jogo da conquista”, o que hoje percebo tratar-se de uma atividade que além de tomar muito tempo, acaba sendo uma corrida vazia em círculos sendo que no outro dia você somente tem uma “ressaca” e um vazio num blue day em que você passa desesperadamente a ansiar novamente por “mais uma dose” (em breve compartilharei um “ensaio sobre a carência” que estou rascunhando). Paulatinamente deixei de querer “me refugiar” de volta no Brasil nos feriados o que inclusive me propiciou um um réveillon incrível cruzando as 4 principais ilhas do Havaí (tendo viajado sozinho sem ao menos ter vagas de pernoite em alguns dos dias da alta temporada). Percebo hoje que esta transição traz grande semelhança com minha mudança para Campinas há 17 anos: de início eu ainda seguia preso às raízes antigas, aos relacionamentos em minha cidade natal. Foi necessário um grande exercício de desprendimento (e perseverança) para “virar a chave”, passar a aceitar a nova realidade, acostumar-se com ela e, ao final, passar a curti-la. 
  3. Tudo o que estamos passando não deixa afinal de ser uma adaptação, um “luto” a ser superado, como no modelo da psiquiatra de Elisabeth Kübler-Ross que propõe termos que passar pela negação (além da raiva, barganha, depressão) antes de aceitarmos a mudança imposta. E felizmente este “luto de nossa liberdade” é apenas temporário, é apenas um "até logo" e não um "adeus”. Assim, a última lição que tive (e que me ajuda inclusive a lidar com a "nostalgia do retrovisor") é pensar que haverá um fim para o que estamos passando (que um dia vamos voltar à nossas vidas). Esta noção de tratar-se de algo passageiro traz então um certo sentimento de aproveitar o que é efêmero, escasso, fazendo com que passemos inclusive a nos dedicar mais às atividades que sabidamente podemos exercer mais livremente durante esta exceção (antes de retomarmos a correria insana da “normalidade”). Isso vale tanto para eu melhor aproveitar o “American way of life” nos anos em que aqui estiver (antes de voltar aos finais de semana festivos brasileiros) como ao “Isolated way of life” de agora. Que tal aproveitar que temos mais tempo para ler aquela pilha de livros que acumulam pó em nossa estante? Por que não dar uma olhada na lista de filmes do último das últimas edições do Óscar para ter algumas ideias (ou por que não, apelar para o Netflix)? E qual nossa desculpa agora que temos tempo para aprender a tocar uns instrumento, estudar um novo idioma, estar com a família ou organizar a casa? Mais que enxergar esta “grande luz no final do túnel” em um momento ainda mais distante (que talvez venha a ser daqui um mês, dois ou mais - a incerteza obviamente torna a espera mais tortuosa) tento enxergar pequenos deleites mais próximos permeando a jornada… curtir os pequenos momentos de cada dia, permitindo-nos pequenos prazeres (pode ser a atividade física do final do dia, a ligação a um amigo, um filme ou vinho ao final da noite, etc).


Parte 3: à prática (o que tenho feito de meus dias de isolamento)
Para além das “teorias” resolvi trazer um pouco de um relato prático e objetivo do que têm sido meu cotidiano nas últimas semanas (algumas atividades / hobbies que tenho perseguido), extensíveis a toda a família que vive comigo aqui nos EUA, ou seja: Me, Myself and I . Já deixo um spoiler: não tem nada de especial, e talvez seja justamente este o segredo (curtir as cosias simples que até outrora não desfrutávamos por estarmos ocupados demais).

  • Depois de anos tenho conseguido praticar sucessivamente as 8 horas diárias de sono (dormindo das 23 às 7 normalmente).
  • A depender da agenda do dia e da necessidade de iniciar a jornada logo cedo pra pegar meus colegas da Europa ainda acordados, parto pra uma corrida matinal na orla diante do nascer do sol 🌅 (sim, ainda é permitido sair para exercícios desde que respeitado o distanciamento social)
  • Depois de uma ducha vou cuidar das plantas na sacada 🌱 . Ali mesmo me deito na rede para me atualizar sobre as notícias do computador/celular.
  • Preparo o café da manhã ouvindo alguma música ou as notícias do dia na TV ☕️  
  • Como minha unidade de negócios segue operante, inicio o home office com planilhas, ppts e sessões de Skype. Já trabalhava em casa vários dias na semana e confesso que a despeito de fazer falta um pouco de contato social, acaba rendendo bastante (tanto pela ausência de interrupções, pela possibilidade de foco e por evitar perder tempo com deslocamento).
  • Seguindo o irregular relógio biológico da fome (e a depender das possibilidades entre infindáveis teleconferências), em algum momento paro para eu mesmo preparar o almoço. Mantenho uma divisão de tarefas bem efetiva do tipo: o “eu com fome” cozinha e depois o “eu saciado” lava a louça. Isso também já fazia parte de minha rotina mas venho tentando despertar meu lado master chef variando mais as receitas e sendo criativo (a última criação já devorada foi um apfelstrudel) 🥗 
  • Curto o almoço com alguma música, debate na internet ou mesmo TV e sempre dá tempo de furtar um cafezinho antes de começar o “segundo tempo” no trabalho.
  • Geralmente dá pra dar um break e fazer uma ligação, trocar mensagens de ZAP ou mesmo uma vídeo chamada pra descontrair a tarde (sim, são os micro prazeres necessários a que me referi). Entre uma pausa pro café e outra acabei até finalmente afinando o violão (coisa que não havia feito desde que me mudei pra cá) e fazer algum barulho. 🎶 
  • Ao final do dia me permito me voltar a atividades variadas mais relaxadas: dar um tempo no Netflix 🎥  (há anos só vinha praticamente assistindo a filmes durante voos, isso quando não desmaiava de sono antes - só na última semana vi mais de 10!), curtir umas músicas 🎶 “das antigas”, ler e voltar a colocar uns devaneios no papel (exatamente o que estou fazendo agora). A verdade é que normalmente sempre estivemos ocupados demais para colocar todos nossas atividades das 24h do dia e de repente parece que temos uma pausa para nos dedicar um pouco mais a algumas delas que estavam relegadas (já que a concorrência pelo tempo é menor). Em geral estou aproveitando até pra curtir meu próprio prédio e apartamento, os quais nem havia tido tempo para desfrutar desde que cheguei aqui nos EUA.

É óbvio que como humano e mortal sinto vontade de fazer coisas que são proibidas ou desaconselhadas no momento. É irônico: lembro de quantos sábados fiquei debruçado diante do sofá na preguiça de pegar a motoca e rumar para o centro de paraquedismo, coisa que mais tenho vontade de fazer agora. Mas é só uma questão de tirar um pouco o foco do que está proibido e pensar no que agora finalmente tenho tempo de perseguir.

Até recentemente intercalava estas atividades com a piscina do prévio que logo no início da quarentena foi bloqueada (justamente quando eu pensava que a quarentena acabaria me deixando 50 tons menos albino). Em seguida a academia, por motivos óbvios, teve as atividades encerradas. Parti então para retomar a prática do tênis  🎾, até que na última segunda feira a quadra também foi lacrada.   Mas não me dei por vencido e resgatei um TRX e uns elásticos que eu tinha aqui e passei a praticar exercícios ao ar livre no condomínio ou no próprio apartamento 💪. Sei que em breve deverão restringir as saídas para exercícios físicos e já estou pensando em correr numa parte interna do prédio. Brinco que parece um filme de terror: a cada dia, um susto novo, uma privação. Mas está tudo bem, isso acaba forçando-me a me reinventar (e aqui estou unindo todas as lições: sendo otimista, adaptando-me e buscando novas referências e mantendo a calma ciente de que essa privações chegarão a um fim). Basta assumir um pouco o protagonismo da própria vida para tornar nossos dias um pouco mais interessantes.






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