São vários os contos que vêm à mente quando falamos de indecisão:
- Ir à várias lojas em um shopping mas não saber o que comprar (ou então voltar e fechar a compra na primeira opção)
- Decisão da roupa para uma ocasião em especial
- A epopéia de escolher um carro novo
- Escolher qual filme se ver no cinema (ou, em uma versão atualizada, no Netflix)
- Selecionar o destino para as próximas férias
- Ou então a simples decisão do que fazer em uma tarde de domingo - seja diante de um céu límpido e ensolarado ou frente às tormentas das águas
Pois é isso que Barry Schwartz chama de Paradoxo da Escolha em livro homônimo: quão tortuosa é a tarefa de tomada de decisão em um mundo repleto de opções. Mais precisamente, o autor se dispõe a refletir sobre como o crescimento exponencial de alternativas de escolha, ao invés de facilitar nossas decisões, trouxe uma neurose nunca antes vista, depreciando nosso bem estar. A reflexão de Schartz está mais calcada no mundo dos negócios (sortimento de produtos disponíveis buscando a sedução do consumidor), o que explica o porquê da simples compra de um novo celular se transformar em uma aventura que pode perdurar todo um final de semana, senão mais (paralisia pré decisão). São inúmeras leituras de reviews, dicas de amigos, orientações de vendedores, testes, etc para a compra de algo que dificilmente perdurará conosco por mais de 2 anos. Todavia, o próprio livro já antecipa que esse paradoxo se estende a todas as esferas da vida, transcendendo o mundo do consumo:: vida profissional e acadêmica, amizades, sexo, relações amorosas, criação dos filhos, etc.
Falando no teorês (emprestado em grande parte das ciências econômicas), o paradoxo da escolha parece contrariar assim o dogma das sociedades industriais (liberais) de que a ampliação do sortimento da oferta (via livre concorrência), ao aumentar a liberdade de escolha, maximiza o bem estar. E mais uma vez parte da responsabilidade por tal fenômeno recai à Era da informação: somos bombardeados por uma infinidade ímpar de dados sobre tudo, sendo que o problema deixou de ser a disponibilidade de conteúdo, passando para o excesso de fontes e a dificuldade de se fazer o filtro otimizador (qualquer graduado que concluiu um TCC, mestrando ou doutorando saberá por experiência própria o que é isso).
A interpretação de Schwartz está em si centrada em um conceito bem conhecido e disseminado, o custo de oportunidade. Em outras palavras, quando as opções são excludentes, cada escolha é uma renúncia (ou várias renúncias). Muitas vezes ao se escolher algo não sentimos que estamos definindo o que queremos, mas perdendo todas as demais opções. A forma mais fácil de entender isso é pensar no tempo, o que chamo de recurso mais democrático. O tempo passa com a mesma velocidade para todos, independente do sexo, raça, nacionalidade ou classe social. E cada simples escolha de onde aplicar nosso tempo implica em deixar todas as demais opções de lado. É então óbvio que, quanto maior o número das demais opções, maior a dificuldade em escolhermos o que fazer (e posteriormente de focarmos nisso).
Quem nunca escolheu um programa para a tarde de domingo e depois se arrependeu ou teve aquela sensação de que o outro convite (recusado) seria melhor? Ou então que atire a primeira pedra aquele que um tempo depois de comprar aquele carro, roupa, celular ou qualquer outra coisa não se frustrou pensando não ter feito a melhor escolha?
Além disso tudo, com a pluralidade de opções, não só aumentam as expectativas (já que são vários os cenários de paraíso de contentamento e “opção ideal” possíveis), mas nós nos tornamos sujeitos responsáveis pelas decisões (comumente tidas como más escolhas, como acabo de ilustrar).
Tem-se assim 5 grandes resultantes desse martírio da escolha:
- Paralisia pré decisão: com tantas as opções, fica difícil fazer um filtro que nos facilite uma definição racional
- Arrependimento: menor satisfação com a escolha (what if effect = arrependimento) até mesmo porque cada escolha representará múltiplas renúncias
- Custo de oportunidade (escolher algo é não escolher todas as demais opções)
- Escalada das expectativas: Ampliação das expectativas
- Auto culpa: A culpa pelo arrependimento é sua: você poderia ter feito uma escolha melhor (e não o fabricante poderia ter feito melhor)
Mas meu objetivo aqui não é fazer uma resenha do livro, mas sim propor uma expansão da reflexão (vulgo exaptação). Meu objetivo aqui é sugerir que essa perspectiva do “descontentamento pelo excesso” se torna fundamentalmente apetitosa no âmbito das relações sociais, com especial atenção às afetivas (sim, aqui a polêmica é maior).
Acredito de que grande parte das discussões recentes sobre a efemeridade dos relacionamentos tenha uma relação muito próxima com essa mesma questão de nossas falhas pelos excessos, ou do nada se ter por muito se querer. Vamos aos fatos: antes nos relacionávamos com as pessoas de nossas várias comunidade (escola, faculdade, cursos, emprego, igreja, família, amigos de amigos). Assim, ainda que morássemos em megalópoles, o círculo social era mais restrito. É fato que para isso contribuíam também os costumes: casava-se mais cedo e a “solteirisse tardia” era abominada socialmente. Assim, o mais comum e aceito pelo big brother social era quase dogmático em 3 fases: 1. estudo (adquire competência). 2. trabalho. 3 construção de família.
Épremente que hoje tudo está muito distinto: as pessoas estão mais donas de si e um leque maior de escolhas se abriu. Em paralelo, a qualificação profissional aumentou, intensificando a competitividade no mercado, impelindo cada qual a se lançar em uma infindável incursão nos planos de carreiras. E com as pessoas dispostas a permanecerem solteiras por mais tempo, abriu-se todo um mercado atrativo à atração de ofertas de entretenimento: cafeterias, bares, baladas, clubes e academias se moldaram para receber um público ainda solteiro a despeito do passar dos anos.
Não é por acaso que pesquisas já revelarem que a proporção de solteiros é maior em grandes centros, lugares em que onde há uma pluralidade infinitamente maior de opções. Por mais triste que possa ser, tenho amigos do interior confessam que se casaram por “não ter mais muito o que se fazer solteiros em uma cidade pequena”.
E… voilà, não é preciso de muita divagação para encontrar o vínculo disso tudo com a “fluidez” (para empregar um termo pomposo) e volatilidade dos relacionamentos humanos. Isso talvez encontre atualmente seu expoente máximo e mais perceptível com os N aplicativos de relacionamento (cardápios humanos como Tinder, Hppn e outros tantos que se proliferam como que com vida própria) nos quais “folheamos” perfis, fotos e descrições de pessoas como que em um catálogo da Natura ou Polishop. Cruzamos rapidamente os perfis com o “modelo ideal mental” que temos, como se toda complexidade humana pudesse ser simplificada por uma descrição, estilo musical e filmes favoritos. Mas como coloquei previamente, essa superficialidade não é exclusiva dos apps sociais (apenas fica mais evidente neles) - base pensarmos em quão rasas são as conversas em nossas “noitadas”. Tudo virou um “jogo dos 7 erros” em que estamos sendo medidos e testados a toda hora para verificar uma suposta compatibilidade. As personagens que inventamos para nos “vender”, seja pelo nosso descritivo/fotos nas mídias sociais, seja pelo nosso raso discurso nas noites (territórios sagrados de acasalamento humano, como chamadas as baladas no excelente filme “The Mating Habits of Earthbound Human” ou “O Amor por um Extraterrestre”). O diálogo aberto e descompromissado cede lugar a um “pavoneamento” de demonstração apressada de valor (até porque há uma fila de outros pretendentes que não abrirá margem para falhas). É triste, chato e bobo… mas como já é praxe e usual, acabamos por nem notar. A sensação que fica é do anfitrião de uma festa enorme por ele promovida mas que, perplexamente, ele mesmo não consegue desfrutar por ficar com a atenção diluída entre os vários convidados. É como quando chegamos famintos a uma farta de mesa de buffet e ao invés de fazer uma refeição balanceada, tentamos nos empanturrar com tudo e acabamos com o ônus da indigestão.
Obviamente que escrevo tudo isso com conhecimento de causa justamente por viver nesse mundo, nesse contexto (e, sim, utilizando os mesmo aplicativos que aqui critico). Foi exatamente essa percepção que me levou a escrever certa vez:
não sou minha formação;
não sou meu emprego;
não sou sinônimo das pessoas de que eu gosto;
não são antônimo das pessoas que odeio
não sou as roupas transitórias que uso;
não sou o que posso dizer/fingir que sou (talvez esse seja quem quero ser);
não sou as roupas transitórias que uso;
não sou o que posso dizer/fingir que sou (talvez esse seja quem quero ser);
não sou quem dizem que sou...
sou alguém que, como todo qual, é suficientemente complexo, interessante, com hormônios, sentimentos e planos que levam a uma mudança constante, torna do-me impossível de ser conhecido em uma única noite ou descrito, resumido e simplificado
Daí a semelhança com o paradoxo da escolha. Nas noites, nas mídias sociais, em nossos bolsos (na agenda e nos milhares de aplicativos de nossos celulares) temos N opções batendo à nossa porta a cada instante. E acabamos nos perdendo nessa multidão desse universo expandido quantitativamente mas bastante restrito quando analisado de forma qualitativa. E como o Sr Charles (Darwin) já previa: evoluímos e nos adaptamos.
Só que essa adaptação vem com uma conta alta: tornamo-nos superficiais… e neuróticos. Para lidar com o crescente número de opções e contatos, acabamos sendo mais levianos em nossos contatos. Tentamos rapidamente sintetizar e enquadrar as pessoas que conhecemos em perfis totalmente estereotipados ou ainda traduzimos toda a apetitosa complexidade humana em uma tosca opção binária: Apto ou inapto (qualquer semelhança aos botões do Tinder não é, obviamente, uma mera coincidência).
Já sentiu aquela dificuldade em “administrar” os amigos? Pois bem, pesquisas mostram que em geral conseguimos manter concomitantemente um relacionamento mais próximo com apenas 6 pessoas (inclusos aí os membros da família). Para se adicionar um novo elemento, elimina-se outro. Agora imagine como fica isso na nova perspectiva das múltiplas conexões nos inúmeros aplicativos? Como “gerenciar” isso? Precisamos de uma secretária pessoal e cairemos no lugar comum de “terceirizar” e confiar a outrem mesmo nossas questões mais fundamentais?
Nicholas Carr no livro “What the internet is doing to our brains” sustenta que assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário ao nos bombardear com uma série de informações superficiais que não deixa margem para imersão ou raciocínio crítico. Parece que é isso que estamos fazendo em nossas relações pessoais: Adquirimos uma impaciência que leva à dificuldade de foco em uma relação e substituímos a essência verdadeira daqueles com quem cruzamos (o que envolve uma saborosa dinâmica de degustação paulatina) pelo fast food sequenciado e desenfreado.
A diferença entre o remédio e o veneno por vezes está mesmo na dose. Tudo que é excessivo (excesso de informação e opções no caso) parece ser danoso, principalmente diante da falta de instrumentos/ferramental analíticos adequados (capacidade de processamento).
Mais uma vez recorro ao economês: diz-se que o homem é dotado de racionalidade imperfeita em um ambiente de assimetria de informações. Colocado em miúdos, realizamos nossas decisões em um ambiente de incerteza (longe do mundo ideal em que teríamos todas as informações necessárias a nossa disposição) - daí inclusive relativizar-se o da economia ser uma ciência exata (que já está calcada também na psicologia dos atores em seu processo de decisão em um mundo em que paira a incerteza).
O problema, contudo, não parece ser a pluralidade de opções, mas nosso comportamento diante disso: como seres maximizantes, esquecemo-nos que por vezes "menos é mais" e caimos em uma ciranda viciosa de tentar achar o ponto ótimo para tudo. Erramos nos filtros que nós mesmos nos impomos. Deixamo-nos encantar com a quantidade de info disponível no feed de notícias de nossa timeline do Facebook e achamos estar mais ligados a tudo e a todos. Falta perceber que essa ambição pela hiperconectividade que nos aleja, limitando nosso pensamento mais crítico e ponderado, deixando-nos presos na armadilha das análises mais rasas. Tanto que hoje parece ter havido uma divisão internacional não só do trabalho produtivo mais intelectual: há aqueles (poucos) que pensam e divulgam suas análises e todos os demais que compartilham como papagaios essas ideias pelas redes sociais. E tem-se daí uma suposta "opinião pública" da sociedade da informação.
É certo que para nos apoiar nas escolhas já existem modelos matemáticos sofisticados e computadores com grande capacidade de processamento (big data analytics). Pode parecer exagero colocar isso, mas é exatamente o que a maioria dos websites de relacionamentos tenta fazer: maximizar as chances de sucesso na busca de um parceiro substituindo a convencional tentativa e erro (embasada costumeiramente apenas em uma inicial afeição física) pelo cruzamento de informações. Ainda assim, a psicologia, neurociência e as análises sociais não conseguem definir com unanimidade os pilares essenciais para um relacionamento. Há alguns anos li sobre um matemático russo que escreveu sua dissertação de mestrado com o título "As N razões pelas quais não tenho uma namorada", analisando probabilísticamente as (poucas) chances de encontrar alguém adequada a suas várias "demandas preestabelecidas" (sim, em tese e escondido lá no fundo temos nossos "critérios de aceitação"). E assim, mesmo com conciliação de gostos musicais e outras N preferências, perde-se ao não se conseguir contemplar e prever as infinitas combinações possíveis de sucesso ou insucesso que, a meu ver, trasnscendem em muito a simples análise de dados colocados em formulários (muitas vezes de forma forjada e inconscientemente enganosa). Penso que questões essenciais (valorativas, de comportamento e caráter) somente são passíveis de serem assimiladas e compatibilizadas em uma degustação lenta, paulatina e dinâmica (já que adequamo-nos uns aos outros), o que nos retorna aos ensinamentos de nossos longevos ancestrais: "para se conhecer alguém é preciso comer 1 kg de sal com ele(a)". E isso demanda tempo e paciência... fatores cada vez mais escassos em nossas competências pessoais posto já termos nos adaptado a uma rotina em que é mais fácil e cômodo clicar no próximo link ou apertar next e ver a próxima possível combinação tinderiana. É a geração videogame que acha que pode apertar o reset e recomeçar sempre para tentar um caminho diferente. É mais conveninente acreditar podermos mudar as pessoas do que mudar nosso comportamento e perspectiva com as mesmas pessoas.
A diferença entre o remédio e o veneno por vezes está mesmo na dose. Tudo que é excessivo (excesso de informação e opções no caso) parece ser danoso, principalmente diante da falta de instrumentos/ferramental analíticos adequados (capacidade de processamento).
Mais uma vez recorro ao economês: diz-se que o homem é dotado de racionalidade imperfeita em um ambiente de assimetria de informações. Colocado em miúdos, realizamos nossas decisões em um ambiente de incerteza (longe do mundo ideal em que teríamos todas as informações necessárias a nossa disposição) - daí inclusive relativizar-se o da economia ser uma ciência exata (que já está calcada também na psicologia dos atores em seu processo de decisão em um mundo em que paira a incerteza).
O problema, contudo, não parece ser a pluralidade de opções, mas nosso comportamento diante disso: como seres maximizantes, esquecemo-nos que por vezes "menos é mais" e caimos em uma ciranda viciosa de tentar achar o ponto ótimo para tudo. Erramos nos filtros que nós mesmos nos impomos. Deixamo-nos encantar com a quantidade de info disponível no feed de notícias de nossa timeline do Facebook e achamos estar mais ligados a tudo e a todos. Falta perceber que essa ambição pela hiperconectividade que nos aleja, limitando nosso pensamento mais crítico e ponderado, deixando-nos presos na armadilha das análises mais rasas. Tanto que hoje parece ter havido uma divisão internacional não só do trabalho produtivo mais intelectual: há aqueles (poucos) que pensam e divulgam suas análises e todos os demais que compartilham como papagaios essas ideias pelas redes sociais. E tem-se daí uma suposta "opinião pública" da sociedade da informação.
É certo que para nos apoiar nas escolhas já existem modelos matemáticos sofisticados e computadores com grande capacidade de processamento (big data analytics). Pode parecer exagero colocar isso, mas é exatamente o que a maioria dos websites de relacionamentos tenta fazer: maximizar as chances de sucesso na busca de um parceiro substituindo a convencional tentativa e erro (embasada costumeiramente apenas em uma inicial afeição física) pelo cruzamento de informações. Ainda assim, a psicologia, neurociência e as análises sociais não conseguem definir com unanimidade os pilares essenciais para um relacionamento. Há alguns anos li sobre um matemático russo que escreveu sua dissertação de mestrado com o título "As N razões pelas quais não tenho uma namorada", analisando probabilísticamente as (poucas) chances de encontrar alguém adequada a suas várias "demandas preestabelecidas" (sim, em tese e escondido lá no fundo temos nossos "critérios de aceitação"). E assim, mesmo com conciliação de gostos musicais e outras N preferências, perde-se ao não se conseguir contemplar e prever as infinitas combinações possíveis de sucesso ou insucesso que, a meu ver, trasnscendem em muito a simples análise de dados colocados em formulários (muitas vezes de forma forjada e inconscientemente enganosa). Penso que questões essenciais (valorativas, de comportamento e caráter) somente são passíveis de serem assimiladas e compatibilizadas em uma degustação lenta, paulatina e dinâmica (já que adequamo-nos uns aos outros), o que nos retorna aos ensinamentos de nossos longevos ancestrais: "para se conhecer alguém é preciso comer 1 kg de sal com ele(a)". E isso demanda tempo e paciência... fatores cada vez mais escassos em nossas competências pessoais posto já termos nos adaptado a uma rotina em que é mais fácil e cômodo clicar no próximo link ou apertar next e ver a próxima possível combinação tinderiana. É a geração videogame que acha que pode apertar o reset e recomeçar sempre para tentar um caminho diferente. É mais conveninente acreditar podermos mudar as pessoas do que mudar nosso comportamento e perspectiva com as mesmas pessoas.
Temos pressa mas acabamos não chegando ao destino almejado! E erramos por medo de errar. Pouco temos por muito queremos. Vale deixar aqui a metáfora do aquário: há uma aparente limitação na vida no aquário. Mas se o aquário for quebrado, não se tem maior liberdade, mas sim paralisia. A limitação do aquário representa portanto a maior potencialidade. E nesse caso, melhor seria a limitação da obrigação da cor preta para o velho Fort T...
Nesse sentido as opções são como o mar: seduzem mas podem nos afogar.
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