sábado, 10 de agosto de 2013

O hiato entre universidade e empresa no que tange à pesquisa no Brasil

"A ciência brasileira se tornou muito acadêmica e, para participar do processo de inovação nas empresas, precisa formar recursos humanos adequados. Quando critico a universidade é porque ela sempre ficou fechada em si mesmo, temos que ter maior interação com as empresas para o estudante sair de lá mais qualificado. Temos que repensar o sistema universitário" - Ministro Marco Antônio Raupp (MCTI) Basicamente depois de refletir um pouco sobre o tema do gap universidade-indústria (a despeito do sabido fato de que a função da universidade transcende a pesquisa aplicada para a iniciativa privada), percebo 3 culpas que coloco sucintamente abaixo: 1. A culpa da empresa: • Por ter comumente o cerne de suas pesquisas de ponta feitas na matriz, costumeiramente localizada no exterior (um determinante da dependência brasileira do capital internacional no nosso falho tripé); • Aversão ao risco para se vincular/financiar pesquisas mais disruptivas localmente; • Busca de resultados de curto prazo e projetos problem solving / ad hoc (mais focados em achar uma solução rápida para um problema em específico dentro de um contexto mais amplo) 2. A culpa da universidade: • Como bem colocado pelo Potter e Tiritan, a meritocracia e critérios de avaliação de profissionais da carreira acadêmica no Brasil são bastante questionáveis – realmente a produção acadêmica desvinculada a um programa mais bem orquestrado (a despeito da necessária liberdade de iniciativa) constitui um histórico obstáculo; 3. A culpa do planejamento: • Acredito que as duas primeiras culpas são na verdade consequência desta terceira causalidade ao viés da pesquisa no Brasil: as políticas de fomento (multiministeriais, devendo em tese envolver educação, ciência e tecnologia, fazenda, desenvolvimento, ... ) e, de forma mais geral, a própria falta de um maior planejamento nacional (sim, crítica essa bastante genérica mais parecendo um chavão, mas vou explicar) parecem erodir a problemática e aumentar o fosso que separa a pesquisa acadêmica de sua aplicabilidade prática (seja no meio corporativo ou não); • Explicando melhor (e retomando um ponto colocado pelo Potter), há uma pluralidade de centros de pesquisa disputando recursos (bolsas de pesquisa) mas sem estar atrelados a um projeto maior. As próprias bolsas, aliás, estão dispersas por uma infinidade de áreas que não permitem identificar um objeto maior de longo prazo a ser atingido, qual fosse, por exemplo, a excelência nos estudos sobre determinadas doenças negligenciadas, fibras ópticas, etc. • A despeito dos avanços em termos de Lei da Inovação (2004) no que tange às parcerias entre universidade e indústria (e teoricamente tornando tal aproximação mais interessante ao próprio pesquisador) tem-se ainda infelizmente grande dificuldade em se direcionar as pesquisas ou mesmo patentes geradas nas universidades. Trago agora uma percepção bastante pessoal de quem está em diálogo constante com áreas de pesquisas de diversas empresas, bem como com parte bastante representativa de todo o "aparato" de inovação governamental/acadêmico (ICTs, NITs, agências de inovação, pesquisadores): - Não apenas publicações acadêmicas mas várias patentes são geradas anualmente sem que se trabalhe com a sua aplicabilidade. A iniciativa do Desafio Unicamp (de promover competições de estudantes para criar modelos de negócios para as patentes) é reflexo disso. Ainda mais: os ganhos das universidades brasileiras com licenciamento de patentes são pífios quando comparado a universidades nos EUA, por exemplo; - Visitei um NIT recentemente e antes mesmo de tentarem entender minha demandas, despejaram um descritivo (muito técnico, sem conceito ou aplicabilidade claramente explicitada) de várias patentes que pouco pareciam ter sido selecionadas. Ao perguntar sobre a possibilidade de melhor explorar as patentes depositadas, confessaram ainda não ter isso organizado de forma adequada; - Experimentei também simples contratos de confidencialidade com agências de inovação tardando mais de um mês para serem assinados. - Estive ainda com o fundador de uma iniciativa (Health Valley) que consiste em um HUB de inovações na área da saúde. O enorme desafio dessa proposta é justamente a criação de uma nova organização intermediária para facilitar e aproximação de todo o ecossistema da saúde: universidades, empresas, investidores, startups, inventores independentes. Tal hub institucional não é demandado em outros países com sistemas de inovação mais maduro simplesmente porque as instituições tradicionais parecem já fazer cumprir seu papel, dispensando a necessidade de um novo ator/intermediário/atravessador. - Por fim e como contraponto, percebi algumas iniciativas bastante profícuas (ainda que mais específicas) entre algumas empresas e universidades, sobretudo pensando a área alimentícia e agrícola (Faculdade de Eng. De Alimentos da Unicamp e grandes empresas alimentícias; Embrapa e empresas de diversos elos da cadeia agropecuária), não coincidentemente em áreas de menor intensidade tecnológica e para as quais houve no passado maior preocupação quanto à constituição de um sistema de inovação mais específico e bem orientado (daí a crítica antecedente à falta de planejamento).

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