Pano de fundo (Milani by Milani – tentando compreender o autor para entender as reflexões propostas)
Será que dinheiro realmente traz felicidade? Quanto é necessário para ser feliz? O que de fato buscamos ou, acima de tudo, o que é mesmo felicidade (além do substantivo comum que tomamos costumeiramente como clichê)?
Tenho um apreço especial por estes questionamentos pois se tratam daqueles que me motivaram a iniciar este blog (e apenas hoje, após muitas edições e alterações, coloco no ar). Mais que pensamentos desconexos de uma noite de insônia, os escritos daqui refletem as inquietações de um período de grandes dúvidas em minha vida, às quais me levaram a tentativas, mudanças e grandes decisões.
Não acredito que uma obra consiga ser imparcial, delineio aqui algumas palavras iniciais sobre mim, esperando tornar fácil a compreensão da essência de meus escritos (e as óbvias e inevitáveis influências, motivações e vieses) e como tais reflexões propiciaram grande mudança em minha vida.
Aos 17 anos saí de minha pequena cidade no interior do Paraná para cursar Engenharia em Campinas. Dadas as incompatibilidades do curso com minhas perspectivas pessoais (sobretudo por ser uma pessoa que demanda atividades que envolvam maior contato social), deixei esta faculdade, tendo iniciado uma formação humanística ao cursar Relações Internacionais e Economia.
Tendo herdado o gosto por estudos de minha mãe, devo gratidão a meu pai ao fato de poder dar dedicação integral por aos estudos enquanto na faculdade. A despeito de quaisquer dificuldades e abalos financeiros, era ele que sempre me blindara neste quesito fazendo com que a formação sempre fosse tomada como prioridade, não havendo qualquer pressão para que eu adentrasse logo no mercado de trabalho, desde que esta postergação fosse dada a uma melhor preparação acadêmica. Sem dúvida mais do que uma tranquilidade momentânea eu estava ganhando ali o maior presente de todos: a possibilidade focar-me no intelecto e verdadeiramente aprender e dispor-me a pensar!
Isto foi ainda corroborado pela singular formação humanística que tive ao cursar Relações Internacionais e Economia em período integral, em uma orientação (apenas hoje reconhecia como acertada e muito adequada) sempre defendida pelo diretor e professor João Manuel de exigir foco exclusivo aos estudos para garantir uma formação sólida (algo de fato incomum no Brasil).
Era todavia chegada a hora da imersão ao “mundo real”. Eu já enfadado de tanta “teoria e academiquês” e poderia então lançar-me àquilo para o que realmente queria e me preparara (ou ao menos era isto que até então eu acreditava). Em algumas experiências profissionais anteriores (estágios) que busquei por ansiedade e curiosidade em conhecer o mercado eu já havia me rebelado com algumas robóticas, rotineiras e pouco pensantes atividades, mas naquele momento estava certo de que com maior dedicação e alcançando uma posição de maior destaque no mercado, deleitar-me-ia com o tão procurado dinamismo e possibilidades de inovação no mundo corporativo (características condizentes com a realização profissional buscada por nós da “geração Y”).
Ingressei então como trainee em uma multinacional líder do setor de papel e celulose após um grande processo seletivo que culminou com 7 selecionados entre mais de 14.000 candidatos, grande trunfo para um recém formado que busque uma carreira focada no mundo dos negócios.
Ainda assim, não tardou para que eu me flagrasse um pouco frustrado, passadas as descobertas e novidades iniciais. Achei desagradável uma carreira simplesmente EXECUTIVA (só aí fui entender o porque do nome) em uma empresa que tudo já parecesse estar pronto e implantado. Aceitei então um desafio de ir pra uma empresa muito menor que, ostentando um crescimento anual superior a 50%, oferecia inúmeros desafios e oportunidades pela frente.
Entrei novamente como trainee após outro igualmente concorrido processo de seleção, assumindo em um curto período de tempo a gerência de contas do segmento automotivo (pelo qual sempre tive confessada atração), migrando depois à área de projetos estratégicos (projetos logísticos avançados, mapeamento de problemas, gargalos e soluções, análises financeiras, tendo assim o tão procurado dinamismo com praticamente a inexistência de uma rotina repetitiva).
Resumidamente, progredi rapidamente na carreira com crescentes desafios, múltiplas responsabilidades, um boa projeção salarial, enfim, condicionantes de sucesso profissional que, aliados à um equilíbrio no âmbito pessoal, poderiam constituir indícios de uma “vida de sucesso”. Todavia, quando olhava para a nova rotina, e sobretudo para as perspectivas que haviam consumido minha vida (sem promessa de melhora ou retorno das atividades que tenho como mais prazerosas), novamente optei pela mudança.
Por sempre gostar de falar, escrever, ler, pesquisar, estudar, estar com o público, ajudar, comecei a lecionar em algumas instituições e percebi que esta era uma atividade que me dava muito mais realização (não focando apenas o âmbito profissional/salarial, mas sobretudo pessoal). Voltei a cursar algumas disciplinas como aluno especial junto a turmas de mestrado na Unicamp e Ufscar, regozijando-me novamente em estar em meio ao ambiente, discussões e descobertas acadêmicas. Foi então que resolvi dar o salto mortal de minha vida, abandonando a esfera corporativa e passando a dedicar-me integralmente à vida acadêmica, atividade apenas compartilhada com outros projetos pessoais (como, por exemplo, tecer este blog ou retomar um negócio pessoal de vendas de artigos colecionáveis). Retomei minha auto confiança, minha vida social, conheci novas pessoas, fiz novos grandes amigos. Tenho mais paz em meus dias, mais tranquilidade para viver e aproveitar cada pequeno e precioso momento, café cafezinho, cada volta de carro, a curtir mais cada ida à academia, agora não mais com a cabeça nos problemas, e sim, com as conversas com o pessoal entre um exercício e outro. E mais, consegui voltar a transbordar esta felicidade com as pessoas com quem me relaciono diariamente: tenho uma relação familiar mais harmoniosa, sou mais atencioso com os amigos e consigo sorrir e retribuir sorrisos com cada pessoa que tem os dias comigo cruzados. Percebi então ter me reencontrado, podendo viver novamente aquele Marcos Milani com sonhos, vontades, e realizações. Ainda que tivesse (e tenha) hoje muitas incertezas, dúvidas e preocupações, consigo hoje retomar o que acho fundamental à vida de qualquer pessoa: acordar na grande maioria dos dias, independentemente das preocupações, com a sensação de que “viver é muito bom, e que cumprimos nossa parte para que assim o seja”.
Carpe diem, carpe via, carpe vita (aproveite o dia, aproveite o caminho, aproveite a vida)
Esboço aqui alguns dos pensamentos que me encorajaram a tais difíceis e impactantes mudanças. FELICIDADE EM LATA traz, assim, uma análise hedonista (ou, melhor definindo, um carpe diem responsável) sobre a condução das vidas explorando o grande clichê do CAMINHO DA FELICIDADE (clichê pela difusão da frase mas infelizmente não pela busca prática).
Devo aqui confessar que eu mesmo, ao redigir o presente texto, questionei-me bastante acerca desta expressão, pensando que algo tão batido e aparentemente simplista dificilmente atrairia maiores interesses, leituras ou discussões. Por fim, acabei por empregar propositalmente estas palavras até mesmo como recurso estilístico para evidenciar desvinculamo-nos hoje de questões que de tão básicas perplexamente sequer são pensadas e buscadas.
O âmago da discussão que tento aqui suscitar (não antecipando “o fim da história”) é minha crença de que ninguém acha este dito CAMINHO porque a tal da FELICIDADE não deve ser um fim em si só, um lócus após uma bem delimitada linha de chegada (com metas e superações), guardado em algum lugar do tempo/espaço/posses ou relacionamentos. Colocado de outra forma e tal como tentarei evidenciar aqui (a partir de modelos, estudos científicos, estatísticos, pensamentos, exemplos e contribuições pessoais), acredito (e dedico minha vida para que) a felicidade deva estar presente na rotina, nos simples, tranquilos e bem vividos momentos, perpassando todo o caminho tão transitório e mutável de nossa existência.
Neste sentido, quando comparado ao complexo e racional homem moderno, talvez mais sábio fosse o ancestral primitivo que, até mesmo pela falta de planejamento ou condições para tanto, acabava por ter uma vida mais focada na resolução dos triviais problemas diários ao invés de sacrificar o presente para talvez salvaguardar alguma maior tranquilidade futura.
“A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos nossos planos” (John Lenon).
Padrões de vida atuais
Como professor de cursinho preparatório para concursos públicos, vejo muitas pessoas deixando as cadeiras corporativas em busca do funcionalismo com a costumeira frase “quero ser feliz, aproveitar minha vida, ver meus filhos crescerem”, o que é bastante compreensível sobretudo quando pensada as tortuosas jornadas a que são acometidos os altos executivos hoje, com jornadas de trabalho sem fim, as quais tem continuidade mesmo após deixar o escritório e rumar para casa ao celular ou ao abrir costumeiramente o notebook durante as férias.
Mais que isto, o equilíbrio crescentemente pregado pelos profissionais da saúde deixa de existir na prática, muitas vezes motivado pela ânsia de ascensão profissional, ou, em outros casos, pela simples necessidade de sobreviver, trabalhando e sustentando a família.
O que se vê é uma escalada da violência (com jovens sendo assassinados, filhos matando os pais, pais arremessando filhos pelas janelas, brigas no trânsito, no trabalho, nas festas), suicídios, depressão desenfreada (geração Prozac), estresse (muitas vezes servindo de base à conflitos familiares e à violência – segundo reportagem da revista Você SA, “seis em cada dez profissionais estão estressados pelo excesso de tarefas e desejam ter uma vida mais equilibrada - http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/trabalhamos-tanto-546359.shtml) e múltiplos distúrbios (como visto pelos crescentes índices de obesidade, em muito propagados pelo sedentarismo e falta de alimentações balanceadas, fruto, por sua vez, da ensandecida rotina a que somos submetidos”) propagados por uma vida de subsistência. Sim, tal qual na música Capitão de Indústria dos Paralamas de Sucesso, muitos de nós “acordamos pra trabalhar, dormimos pra trabalhar, vivemos pra trabalhar”.
Neste mesmo sentido, ao mesmo tempo em que ocorrem notáveis avanços na medicina, percebe-se uma deterioração no quadro clínico geral das pessoas, permitindo concluir que estas moléstias não tem explicação biológica, mas social: a desenfreada queda na qualidade de vida a que nos submetemos (ou, em alguns casos, somos submetidos). Perplexamente, ampliamos nossa expectativa de vida, mas vivemos de fato (no sentido de desfrutar a vida) cada vez menos a cada geração.
Como curioso convicto acerca de todas as áreas (e tendo alguns conhecidos da área da neurociência com quem troco algumas “conversas de boteco”), deparei-me também com uma série de entusiastas em uma nova droga sintetizada inicialmente para tratar da doença da narcolepsia (quando a pessoa perde o controle sobre o sono, dormindo involuntária e constantemente – tal como o personagem do Mr. Bean no filme Corrida Maluca): modafinil. Tal droga, utilizada pelas tropas norte americanas durante a Guerra do Golfo, permite que uma pessoa permaneça desperta, sem deterioração dos sentidos, por múltiplas horas, renovando-se após algumas poucas horas de sono (em torno de 4 horas), sem que o sono atrasado seja cobrado ou que haja confusões mentais (como no caso das anfetaminas – a menos não no curto/médio prazo). Ocorre que há um uso cada vez mais recorrente desta e outras drogas não por necessidade, mas simplesmente para propiciar o aumento d3 “2 ou 4 horas úteis diárias” para que possa haver um mínimo de desfrute/prazer ao final de um longo dia de trabalho ao invés de encarar o fim do dia logo após a saída dos escritórios (o que ajuda a explicar as academias de ginástica que funcionam 24h nos grandes centros).
Conversei recentemente com um avaliador físico de uma grande e consagrada academia de Campinas, onde muitos profissionais de sucesso frequentam. A crítica já é a velha conhecida: muitos somente procuram um modo de vida mais saudável e regrado depois de certa idade ou, o pior, após algum problema de saúde que, com sorte, confere à pessoa uma segunda chance.
O cálculo econômico da felicidade: prazer marginal x receita marginal
Peço aqui licença aos não iniciados em matéria econômica a ir mais a fundo explorando as causalidades desta vida, deste “sucesso” que cobra tantas renúncias. Faço-o cunhando o termo prazer marginal propiciado pela renda decrescente vinculado à esta área do saber para descrever um fenômeno que considero bastante presente em nossas vidas mas que dificilmente suplanta nosso pensamento subconsciente: o de que, a partir de certo nível de renda, os pequenos incrementos salariais acabam não tendo grande representatividade no padrão de vida e bem estar (o que aparece resumidamente na palavra prazer). Mais detalhamente e permitindo-me tomar um exemplo prático, um jovem recém formado que tenha um incremento salarial de 50% quando efetivado na empresa em que antes estagiava (partindo, de, digamos, R$1500,00 para R$2250,00) tem obviamente um grande salto no poder aquisitivo que, aqui confessadamente colocado de um modo bastante simplista, pode trazer uma sensível melhoria na qualidade de vida (locação de um imóvel melhor localizado e que traga mais conforto, maior frequencia em busca de entretenimento como cinemas, teatros, viagens, shows, jantares e almoços em locais diversificados, noitadas, não deixando de lado, obviamente, uma potencial maior estabilidade e tranquilidade financeiras). Por outro lado, o mesmo parece não ocorrer com um trabalhador já mais bem estabelecido que tenha, digamos, um incremento 15% sobre uma base salarial mais representativa: este possivelmente já desfrutava daqueles confortos descritos no parágrafo anterior mesmo antes da promoção a qual, assim sendo, traz apenas um pouco mais de estabildiade ou a possibildiade da aquisição de bens e serviços cada vez mais supérfluos e menso impactantes na qualidade de vida individual (como a troca de um veículo novo que traga bastante conforto por outro que traga apenas um visual mais interessante ou mais status).
Notem que este argumento reflete algo bastante factível: no início da carreira é comum incrementos salariais percentualmente mais significativos (como os 50% acima descritos) sendo que este número tende a decrescer com o amadurecimento da carreira. Ocorre que muitas vezes o esforço marginal para este incremento da renda é mais que proporcional a esta, ou seja, acaba-se tendo uma sensível redução no tempo livre (muitas vezes diretamente vinculado à qualidade de vida) para que se tenha um retorno cada vez mais insignificante, até o ponto em que ascender profissionalmente passa a ser deletério à qualidade de vida: ganha-se mais mas sem que se possua tempo (o grande vilão, alheio mesmo aos poderosos) ou condições psicológicas (tranquilidade, paz de espírito) para desfrutar este excedente.
Este “ponto salarial ótimo” está em consonante à pesquisa estatística realizada nos Estados Unidos em 2010 (mostrada em reportagem da Folha disponível em http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/795092-felicidade-custa-r-11-mil-por-mes-aponta-estudo.shtml), com coautoria de Daniel Kahneman, da Universidade Princeton, vencedor do premio Nobel de Economia em 2002, segundo a qual “descobriram um valor a partir do qual mais riqueza não significa mais bem-estar: R$ 11 mil (reais!) por mês”. Ainda segundo a pesquisa, “para ser feliz, então, o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre (já que) uma renda pequena exacerba as dores emocionais associadas a problemas como divórcio, doença ou solidão". Muito embora o dinheiro tenha sido identificado como segundo principal fator à felicidade, percebe-se que a contribuição passa a ser bastante restrita a partir de R$6.800,00, tornando-se irrelevante a partir dos R$11.300,00 (conforme esboçado no gráfico abaixo – valores segundo os quais, possivelmente, já se pode adquirir grande tranquilidade financeira, qualidade de vida e conforto).
Pode-se então estabelecer um paralelismo bastante interessante entre este o que foi colocado até agora e a célebre pirâmide de Maslow (figura abaixo), a qual estabelece uma hierarquia de necessidades humanas a serem supridas. Mais precisamente, parece bastante óbvio que para os níveis de renda mais baixos muitas vezes são até mesmo insuficiente para o custeio das necessidades fisiológicas básicas (habitação, alimentação, saúde, etc.). É também fato que apenas suprir tais necessidades não traz felicidade (dada a notável diferença entre sobreviver e viver), sendo que, até certo ponto, o crescimento salarial, permitindo uma melhor incorporação das necessidades mais básicas, contribui muito para uma melhor qualidade de vida, o que já não ocorre a partir de certo ponto quando itens desnecessários (e que pouco agregam) passam a ser adquiridos (consumismo, como comentado mais à frente).
Noto, por fim, que não atoa o salário, aos economistas clássicos, é caracterizado como o preço pelo prazer (o preço que cada qual cobra para abdicar de suas horas de prazer em outras atividades para se dispor a trabalhar). Infelizmente raramente se tem o que seria uma racionalização (inclusive sob a ótica econômica) desta relação, sendo que muitos “vendem seu lazer” por uma adicional cada vez menor e menos impactante à cesta de consumo que pessoa irá desfrutar.
Status vis-à-vis consumismo
Mas como explicar esta irracionalidade (mesmo por parte de pessoas bastante sensatas) do trade off desproporcional entre salário e prazer? Tal como já assinalado por Michael Porter (economista mas consagrado no âmbito do Marketing) a economia (clássica), ao apenas analisar relações entre variáveis, torna-se cega às condições mais relacionadas ao comportamento real do consumidor (aos verdadeiros determinantes da compra, que não se baseiam apenas em variáveis como o preço e a quantidade). Em outras palavras, há outros fatores psicológicos determinantes do comportamento do consumidor, tal como comprovado no estudo que premiou Daniel Kahnernan (coautor da pesquisa supra citada) com o prêmio Nobel (mostrar que os homens não tomam decisões totalmente racionais).
Assim, primeiramente e conforme já citado, além das compras por necessidade, é nítido que grande parte do montante dispendido está envolvido em produtos supérfluos, configurando-se o que se costuma convencionar basicamente como “consumismo”, o qual é bastante presente no Brasil (que tem padrões de consumo bastante ocidentalizados). Mais claramente, condicionamo-nos a adquirir costumeiramente uma série de produtos e serviços de que sequer precisamos: possuímos internet de altíssima velocidade (mesmo quando utilizada apenas para enviar e-mails e acessar alguns websites por dia), temos inúmeros canais de TV em alta definição (mas costumeiramente assistimos a apenas alguns poucos), telefonia fixa e ainda planos de celular de vários minutos (quando não 2 aparelhos) que utilizamos apenas por já estarem pagos, sem a real necessidades. O mesmo se dá para os bens de consumo, de reposição e obsolescência cada vez mais rápida: adequamo-nos ao ideal de trocar de veículo a cada 2 ou 3 anos (mesmo quando o uso diário é de poucos km, praticamente não desgastando o veículo até a revenda), adquirimos roupas de novas coleções e somente ao chegar em casa deparamo-nos com o problema de encontrar lugar no armário, percebendo a desnecessidade da compra. Vale citar ainda a importância do crédito às compras (mesmo que com juros consideráveis), para sorte dos bancos comerciais (com lucros cada vez maiores, ostentados ano após ano) e das operadoras de cartão de crédito (que cobram nada menos que aproximados 13% de juros), cegando a grande parcela da população ao mostrar a pequenez das parcelas mas omitir o total de juros (geralmente bastante representativo) realmente pago ao final de todas as prestações (sobretudo quando considerado, por exemplo, as vendas de veículos em até 80 meses, conforme apresentado no Brasil há alguns anos).
Uma fórmula econômica básica mas fundamental, revela que o LUCRO = DESPESAS – CUSTO, ou seja, o que nos sobra ao final do mês (para poupança ou programar uma viagem, aquisição de imóvel, etc.) tem uma relação direta não apenas ao salário que com suor ganhamos, mas também aos custos aos quais somos submetidos (e que, assim, acabam escravizando-nos). Mais uma vez, ironicamente surge uma perplexidade de toda esta “psicologia econômica”: abdicamos de algumas horas de nossos dias para trabalhar, recebendo nossos salários e quitar nossas contas, garantindo mais que nossa subsistência, qualidade de vida. Todavia, atrelamos nossa satisfação à aquisição de bens e serviços (muitos dos quais, como já dito, supérfluos), e para tanto precisamos ampliar nossa base salarial, abdicando de algumas horas do lazer para ascender profissionalmente (assumindo um cargo maior, mas com mais responsabilidades). Assim (a partir daquele ponto de renda em que garantimos as necessidades básicas), a fim de adquirir bens que supostamente trariam maior satisfação, acabamos por abrir mão de horas de lazer, vivência familiar, tranquilidade (menor estresse), justamente os reais responsáveis por uma maior felicidade.
Iludimo-nos e deixamo-nos distrair com metas de curto prazo (em geral efêmeras), como “o próximo carro”, “a viagem do réveillon” e deixamos assim de refletir efetivamente no que de fato faria cada um de nossos dias mais prazeroso e melhor. Assim, permanecemos no emprego indesejado para cumular mais capital e apenas futuramente desfrutá-lo, fazendo nossas rotinas muitas vezes estarem desvinculadas com aquele que deveria ser o único objetivo: ser feliz.
Mas há oura esfera de análise que se mostra fundamental: a também não racional busca pelo status. Talvez mais difícil de domar o consumismo seja driblar o “duelo de egos”. Alguns estudos psicológicos já mostraram que receber um salário maior que um conhecido, em geral, traz mais satisfação do que possuir um salário elevado. A comparação (tal como a expectativa e o apego em demasia, como tornarei a escrever em outro post), é, em si, um forte condicionante a uma desorientação no que deveria ser uma busca individual (movida por interesses pessoais a cada um) do modo de vida mais adequado aos objetivos e prioridades estabelecidas (e, portanto, mais propício à felicidade). Todavia, não raras vezes a comparação de “padrões de vida” impulsiona uma disputa não declarada, norteando as pessoas a uma degenerativa ciranda de competição por números, salários e posses, corroborando para o afastamento dos valores singulares de cada qual, que deveriam embasar os padrões e escolhas de vida (a partir das preferências pessoais), engendrando, de uma forma geral, um modo de vida muito mais simples e feliz.
Por fim, os próprios (falsos) valores da sociedade consagram tanto o consumismo como as posses e, por conseguinte, aqueles de maior fortuna, título ou base salarial, pavimentando uma disputa pelo pódio financeiro que infelizmente tem suplantado a da idoneidade, dos bons valores, generosidade ou assistencialismo.
Outras esferas de análise
A felicidade é, claramente, uma resultante multidimensional de inúmeras variáveis (cada qual com pesos distintos para cada indivíduo). Exemplificando e mais uma vez aludindo à pesquisa sobre o preço da felicidade, foram elencados vários dos principais fatores vinculados à felicidade (fé, remuneração, estado civil, família, formação) e infelicidade (solidão, problemas de saúde, vícios, estado civil), sendo que aqui tomei a liberdade de melhor explorar as condições de vida que nos submetemos pelo trabalho por alguns motivos. Primeiramente, pois é no trabalho em que passamos a maior parte das horas diárias em que estamos despertos, construímos grandes vínculos e relações sociais. O trabalho também exerce forte impacto em outras condicionantes importantes como nível de estresse e renda. Basicamente crescemos e nos preparamos para o mercado de trabalho, e constantemente pensamos em reorientar nossa carreira, estudamos alternativas, vislumbramos mudanças (ainda que muitas vezes não executadas). O dinheiro, a despeito dos chavões e conforme colocado no último parágrafo da seção anterior, é comumente tido como sinônimo de sucesso (o qual está constantemente ligado àquela falsa ideia de felicidade como um fim a ser alcançado apenas em um dia longínquo). Por fim e como mostrado logo no início do texto, eu mesmo tive com as opções profissionais (e óbvias correlações financeiras) a grande guinada em minha vida a favor de uma maior e mais perene felicidade.
Dedicar-me-ei, em outras oportunidades, a explorar alguns dos outros fatores aqui abordados (tal como já fiz quando me dispus a pensar as formas de relacionamento e comprometimento atuais).
A busca responsável de se ESTAR feliz periodicamente
Devo também enfatizar não estar sendo descuidado e incentivando um abandono irresponsável de empregos apenas em uma busca quase hedonista pelo prazer a qualquer custo, mas, pelo contrário, quero mostrar que muitas vezes são recorrentemente colocadas diantes de nós opções e oportunidades concretas e factíveis que nos trariam mais satisfação pessoal, qualidade de vida e felicidade. Acontece que por vezes sequer paramos para refletir nestas pois nossa mente imediatamente tece um comparativo salarial que nos convence não se tratar de algo viável. Lembro aqui, que a felicidade, além de algo subjetivamente individual, não pode ser tão facilmente comparada e sequer plotada nas mais modernas planilhas e softwares. Encorajo-lhes assim a colocar mais esta variável no único processador capaz de trabalhá-la: o cérebro humano com as buscas, aspirações e anseios individuais; isto, todavia, é algo que não ocorre tão diretamente assim e exige relativo e constante esforço para que não deixemos que nsosas vida seja comandad como que por simples algorítimos processadores de cifras e números.
Questiono muito uma simples e comum colocação quando pessoas revelam serem tristes colocando assim a felicidade como um estado estático e imutável, quando na verdade trata-se de um quadro dinâmico condicionado pelas escolhas e ações (não excluindo obviamente outros fatores que fujam do controle individual), muito frequentemente passível de ser mudado desde que se predisponha a mudar o status quo imperante sobre nossas próprias vidas. Por uma falsa sensação de impotência muitos dizer “SER INFELIZES” ao invés de “ESTAR INFELIZES”, abandonando a possibilidade de buscar uma vida melhor, seja mudando o emprego, começando uma nova relação, mudando o estilo devida, etc.
É impossível negar que não raras vezes sejamos surpreendidos em reflexões mais ou menos profundas e voluntárias sobre o estágio atual de nossas vidas e o curso a que esta caminha. Infelizmente raramente acabamos nos levando a sério e voltamos à “dura realidade da rotina que nos tortura”. Assim, o problema não parece ser a falta de pensamentos, mas sim a inércia (comumente relacionada ao receio, ceticismo e à incerteza que nos prende às opções que sabidamente não representam as melhores oferecidas mas garantem ao menos estabilidade) do que chamo fuga dos sonhos. Estranhamente, parece que um excesso de racionalismo, receio e zelo (típicos ainda da geração x) que, a doses comedidas seriam bem vindos para que não tomássemos apenas escolhas emocionais vivendo de forma nefelibata, hoje nos condiciona à total fuga e abandono dos sonhos (ou ao menos da real busca dos meios para que tais pudesses ser atingidos), escondendo-nos sob a realidade (como se ela fosse dada e imutável) e típicos discursos de “encarar a vida como ela é”.
“Muitos passam a vida sonhando por um mundo melhor, mas são poucos que acordados realizam este sonho”. (ONG Sonhar Acordado)
Acredito ser realista saber que a plenitude inexiste entre nós, humanos, e qualquer escolha implicará em renúncias e trará algum tipo de incerteza, dúvida ou problema. Ninguém consegue ser feliz o tempo todo, mas todos podem ter um entendimento (introspecção) do que os faria suas vidas melhores (e o que é supérfluo, competição ou socialmente ditado) e buscar de fato uma maior sintonia das vidas cotidianas com este ideal, fugindo à perigosa e comum disjunção entre atitudes e valores (em que as pessoas sabem do que precisam mas não agem em conformidade).
Mais que seguir regras e padrões estabelecidos, planejar uma felicidade futura (com base em critérios muitas vezes que nunca chegaremos a alcançar ou para que se quer teremos tempo ou condições de aproveitar), foquemos nos nossos ideais pessoais, aqueles que permitiram moldar uma vida estável, segura, mas na qual a felicidade estará em cada xícara de café, em cada sorriso trocado durante uma manhã de segunda feira, em cada viagem, seja à Europa, ao Cariba, ida à cidade vizinha em uma tarde de domingo para visitar a família ou simples flutuação mental ao folhear as páginas do jornal.



"a felicidade deva estar presente na rotina, nos simples, tranquilos e bem vividos momentos"
ResponderExcluir- Quando a rotina nem sempre é tão prazerosa assim, principalmente pelas demandas e excessos seja no trabalho ou em outra atividade, mesmo adorando o que se faz e os resultados e as perspectivas são ainda mais motivantes, qual é o limite? Pelo que você passou no período “corporativo” de sua vida; quão fácil é perceber o limite? A principal motivação para mudança foi a felicidade?
“Ocorre que há um uso cada vez mais recorrente desta e outras drogas não por necessidade, mas simplesmente para propiciar o aumento d3 “2 ou 4 horas úteis diárias” para que possa haver um mínimo de desfrute/prazer ao final de um longo dia de trabalho ao invés de encarar o fim do dia logo após a saída dos escritórios “
- Tempo é dinheiro!...? Tempo é felicidade? Qual é a sua opinião sobre o tempo “livre”? Como a relação com ele tem mudado?
“...ganha-se mais mas sem que se possua tempo (o grande vilão, alheio mesmo aos poderosos) ou condições psicológicas (tranquilidade, paz de espírito) para desfrutar este excedente.”
- Encontrei-me nesse trecho! ... “eu deveria estar estudando” essa frase que não sai da cabeça, afff.
“Muito embora o dinheiro tenha sido identificado como segundo principal fator à felicidade”
- E o primeiro?
“ torna-se cega às condições mais relacionadas ao comportamento real do consumidor (aos verdadeiros determinantes da compra, que não se baseiam apenas em variáveis como o preço e a quantidade). Em outras palavras, há outros fatores psicológicos determinantes do comportamento do consumidor”
... Ó Deus da tecnologia! Diga Steve Jobs o que tenho que comprar?
“adquirimos roupas de novas coleções e somente ao chegar em casa deparamo-nos com o problema de encontrar lugar no armário, percebendo a desnecessidade da compra.”
“Oops I did it again”
“Muitos passam a vida sonhando por um mundo melhor, mas são poucos que acordados realizam este sonho”. (ONG Sonhar Acordado)"
Realizar o sonho poderia ser como estar com o coisa amada, desejada? ...
“O grande desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser, quando chega o tempo da ausência, num sono sem sonhos que só possa acabar no dia do reencontro” Albert Camus – A Peste
Quando nos afastamos daquilo que “amamos” quer dizer que o relacionamento ou coisa é fútil ou medíocre?
Abraço .. Bedotti
Salve, salve, Bedotti,
ResponderExcluirValeu pelos comments; Bom “te ver” por aqui (já que no mundo real lá fora tem estado difícil...rs). Vamos lá a mais algumas divagações...
Qual o limite? Bom, meu limite foi não só quando percebi não ter mais vida social (trabalhava por 10, 12h ou mais na empresa (sempre levando trabalho para casa), lecionava de noite e aos finais de semana. Lembro-me ainda do susto de uma guria (com quem eu saía) ao ficar sabendo que só tinha disponível, além dos finais de semana, das noites de 5ª feira). Mas confesso que caso isto fosse apenas uma fase passageira (para, por exemplo, finalizar um projeto corporativo ou pessoal, comprar uma casa, estabilizar a vida), o que estava longe de ser verdade. O limite, portanto, foi perceber que eu estava em direção a um caminho que não queria mais para mim, que a cada passo adiante, cada promoção, este estilo de vida se sedimentaria ainda mais, sendo cada vez mais difícil fazer o “retorno” a um recomeço.
Tempo: tenho comigo que o tempo seja, primeiramente, limitado, um recurso escasso, finito, que portanto deve ser gerido com parcimônia. Tempo pode ser dinheiro, tempo pode ser lazer/prazer, e é aí que surgem as difíceis decisões (como coloquei, há um trade off) na forma como aplicamos nosso tempo.
Fatores motivadores de felicidade: segundo o estudo mencionado, o primeiro fator da felicidade é a fé (ter uma religião), mas, como eu coloquei no texto, não acredito em uma “fórmula geral” para a felicidade, mas sim que cada pessoa tenha sua equação particular, em que atribui diferentes pesos a variáveis específicas (o que pode mudar inclusive com as fases da vida em que estamos).
Acho que assim também é com os sonhos: são obviamente muito pessoais, só que penso ser necessário ter mais consciência para que os sonhos não configurem apenas novas e subsequentes aquisições (de contribuição cada vez mais marginal à nossas vidas). Neste sentido, acho que devemos vislumbrar uma perspectiva mais completa, sonhar em definir algo que molde nossas vidas na forma em que a desejamos, da forma com que gostaríamos de viver no dia após dia.
E aí que acho que você foi brilhante ao colocar que “quando nos afastamos daquilo que “amamos” quer dizer que o relacionamento ou coisa é fútil ou medíocre!” (com a permissão de substituir sua ? por uma !). Talvez a grande armadilha de hoje em dia seja exatamente esta: apresentar falsas virtudes, falsos objetivos que cegamente perseguimos, sacrificando os verdadeiros amores, estejam materializados na forma da família, da pessoa amada, do estilo de vida mais simples mas que de fato nos faz bem, com paz de espírito.
A mesma ambição que leva o homem à superação é a mesma que o faz “esquecer” seus valores e abandonar as buscas daquilo que efetivamente lhe agregaria.
Em tempo: Boa a “pedida” do “Steve Jobs”... infelizmente há muitos “gurus do mercado” como este, muitos Armanis & cia ltda que incessantemente tentam nos convencer que criaram um novo “modelo de felicidade OEM em liquidação na caixa”...
No mais, veja se consegue um TEMPO para colocarmos a conversa em dia!!!
Abração,
Milani