“Ao cuidar de nossas expectativas pessoais sem nos dar a oportunidade de refletir genuinamente, afastamo-nos daquilo que realmente buscamos e acabamos por correr atrás de sonhos pasteurizados, comercializados em qualquer anúncio publicitário”. (Sidnei Oliveira)
“Penso, logo existo” (René Descartes)
Após várias interrupções nos posts (tal como previsivelmente aconteceria dadas as outras inúmeras atribuições a docência, mestrado, negócios, além das confessas “demandas sociais” por festas, viagens e afins que me afastam dos momentos mais introspetivos com que escrevo), retorno escrevendo o que, seguindo um cronograma lógico, deveria inaugurar este blog: falar um pouco do que me leva a fortuitamente divagar sobre assuntos tão variados (sem um eixo temático comum) neste espaço.
Presto tais esclarecimentos em grande parte ensejado pelos questionamentos de algumas pessoas bastante interessantes que muito contribuíram com questionamentos acerca deste blog. Algumas destas que vem e vão de nossas vidas, mas que, como tudo, deixam uma contribuição, uma experiência.
Na verdade, meu mote a escrever é a própria inquietação e vontade de compartilhar alguns de meus pensamentos que acredito (fugindo à modéstia) serem demasiadamente interessantes para serem trocados apenas com meu travesseiro. Este espaço é meu divã; minha mesa de bar na companhia potencialmente ampla do mundo virtual. Este é o “lugar” para onde venho quando quero divagar... ou compartilhar aquilo que pensei quando outrora divagando.
Daí o caráter fortuito com que escrevo: a cobrança por uma maior periodicidade atribuiria um caráter não casual, driblando a verdadeira inspiração, transformando os pensamentos em um “produto da obrigação” e os leitores em “assíduos clientes a quem eu teria que satisfazer”.
Assim, convém de início esclarecer o título: Lucidez Insana. Muito mais do que apenas utilizar uma figura de linguagem (uma antítese; paradoxo; oximoro) ou empregar uma falsa modéstia ao me autodeclarar insano quando muitas vezes escrevo fatos que para mim parecem bem calcados e racionais. Pois confesso então que o título deste blog está embebido em afiada ironia ao passo em que de fato postulo e compartilho fatos bastante os quais parecem-me bastante razoáveis (quando não óbvios e representantes da escancarada verdade), mas os quais, aos vorazes olhos da volumosa crítica da internet, podem mais parecer insanidades.
Todavia, não será esta a primeira vez em que grandes verdades serão taxadas como heresias e condenadas à fogueira do desprezo em plena sociedade do conhecimento a qual, em contraste à toda informação disponível e liberdade para busca-la, muitas vezes prefere a cômoda ignorância à inquietação da reflexão e da crítica.
Acovardamo-nos atrás do status quo, combatendo a mudança como se fosse um mal e negando que as sucessivas transformações são base da evolução.
Temos, na verdade, MEDO DE PENSAR e profundamente REFLETIR, adotando certas questões complexas como já racionalmente resolvidas, escolhendo axiomas lapidados para dar como resolvidas aquelas que deveriam ser as buscas e entendimentos individuais de cada um. Damos foco na prática e rotineira gestão rotineira de nossos problemas e deixamos de pensar estrategicamente, a longo prazo, em nossos objetivos de vida.
Infelizmente caminhamos para uma realidade de extremo pragmatismo que condena os sonhos: perplexa e ironicamente, escondemo-nos dos sonhos no mundo real, e não o contrário: deixamos de sonhar por estarmos deletéria e sistematicamente perplexos com a realidade que não é, de forma alguma, algo absoluto, mas sim apenas uma versão mutável e flexível moldada por nossas constantes escolhas. Sonhar deixou de ser um combustível à mudança para ser taxado muitas vezes de covardia, falta de realismo, “vida nefelibata”. Assim, acomodamo-nos em um emprego do qual não gostamos pois “assim é a vida”; mantemos um relacionamento oco por ser esta uma demanda social e pois “todos os homens/mulheres são iguais”, deixamos de ajudar o próximo porque “o mundo está perdido mesmo, não tem solução”.
Penso que o erro de muitos seja o sentimento de pequenez diante dos problemas globais, a sensação a óbvia impotência para resolução de grandes querelas que passa a nos tornar demasiadamente céticos para tomar pequenas ações que possam contribuir ao menos para nossa pequena comunidade ou mesmo nossa própria vida.
É esta inércia que viso combater. Não com o rigor de um revolucionário, mas apenas como alguém perpetuamente admirado pelo poder de moção propiciado pela revolução tecnológica (que hoje nos permite facilmente disseminar uma ideia ou ideal rapidamente com o mundo, tal como visto nas recentes manifestações no Egito) e, sobretudo, pela liberdade de expressão conquistada com sangue e suor ao longo dos tempos (hoje consagrada pela Constituição da República Federativa do Brasil, tal como pela Constituição dos Estados Unidos da América à semelhança de muitos outros países).
Há um pensamento a meu ver bastante sábio e interessante que diz nada ser mais complicado que um fato óbvio. É latente como de fato não raras vezes surpreendemo-nos quando, em cada vez mais raros momentos de reflexão em meio à sempre abarrotada rotina, percebemos estar deixando de observar ou até mesmo indo em sentido contrário à premissas básicas e princípios gerais já tidos como certos (truísmos) perante tanto à esfera individual como social (no sentido do que é socialmente aceito e regido consuetudinariamente, não entrando aqui no mérito de um debate sociológico mais complexo).
Isto é notável quando a moral fica publicamente abalada e deturpada em escândalos envolvendo improbidades, atos de má fé, adultérios, sendo inúmeros os exemplos tais como com o Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, o jogador de golf Tiger Woods e o já mais antigo mas não menos impactante caso das articulações dos dirigentes da empresa extinta norte-americana Enron.
Estranho é que, quando passamos do prisma analítico coletivo para o individual, o mesmo parece, a menos em primeira instância, a não ser mais tão amplamente aceito: é tido como bem sucedido nas relações interpessoais aquele que se destaca como “conquistador do sexo oposto” mesmo possuindo um relacionamento assumidamente estável; analogamente, perante aos grupos sociais mais reduzidos (refiro-me aqui às rodas de amigos e, porque não dizer, comparsas), os que se tomam proveito de uma situação privilegiada (política, comercial ou corporativamente) para engordar os próprios bolsos às expensas alheias.
Dito isto de forma mais ampla, proponho-me aqui, ao iniciar este blog, a pensar fundamentalmente questões que, tamanha (e, a meu ver, infundada) banalização, perde destaque nas discussões públicas e, incrivelmente, até mesmo em nossas reflexões e buscas diárias.
Trata-se confessadamente de uma tentativa de trazer à tona e propor um pensamento mais cuidado e aprofundado acerca de tópicos que parecem básicos demais para roubar parte do tempo de nossa atribulada rotina, afinal, já preterimos o relacionamento familiar, os amigos, relacionamentos e até mesmo nossa própria saúde pela ´loucura diária” a que, salvo engano, nós mesmos, arbitrariamente nos submetemos.
Não almejo assim, lançar a centelha de uma grande revolução, com mobilização sem precedentes, mas confesso que mais do que já me contento com a simples divulgação de meus pensamentos, recebimento de críticas e comentários, gratificar-me-ei se ao menos permitir uma singular e individual mobilização em prol de maior reflexão e mudança.
Permito-me encerrar citando duas frases de minha autoria:
“Só perde quem possuiu; apenas morre aquele que um dia viveu; tão somente sofre o que foi um dia feliz; unicamente falha os que honrosamente tiveram coragem de se aventurar, fazer, agir e tentar” (Marcos Milani)
"Grandes triunfos se fizeram da persistência dos chamados loucos, os quais não permitiram que seus até então incompreendidos ideais fossem subjugados pela voraz porém insuficiente resistência daqueles que se faziam alheios à uma ordem sem alterações, sem mudanças, sem novas sensações, sem enfim, contar com o sabor de experimentos aventureiros que poderiam fazer da dúvida e incerteza o que empírica e somente individualmente se pode compreender como aquilo que chamamos e entendemos por vida, em seu sentido mais completo e profundo". – (Marcos Milani)
Por fim e o que talvez resuma grande parte do exposto, parafraseando Fernando Pessoa: “Falo a língua dos insanos, porque não conheço a mórbida coerência dos lúcidos”
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