terça-feira, 24 de novembro de 2015

Geração facebook Vol 2: A doença social escancarada


Geração facebook Vol 2: A doença social escancarada
Em meu último post expus que muito do que vemos no Facebook é na verdade apenas uma “nova embalagem” para nossos velhos demônios, medos, dramas, ansiedades, vontades, inseguranças... sentimentos falhos e humanos em geral (com o perdão do pleonasmo vicioso).

Em pleno século XIX Nietzsche já apontava que “as piores mentiras são as que contamos para nós mesmos. As que contamos para os outros não têm importância”. E o que vejo nas mídias sociais é exatamente uma nova manifestação desse mesmo autoengano. Utiliza-se do lugar ao sol perante o holofote público da timeline para deixar a consequência tranquila, fingir aquele falso moralismo, prestar um pretenso assistencialismo, esboçar um enganoso sinal de felicidade e bem estar em uma nova máscara (virtual) que todos passamos a usar. Estamos em um gigante videogame em que todos temos esse avatar virtual, aquele alter-ego idealizado. É a matrix social da vida real.

Torno a afirmar: Não, o Facebook não criou o mal do universo, mas talvez tenha aberto a caixa de Pandora ao explicitar e exponencializar parte da podridão social antes mais contida. E como prova de que a essência humana permanece intocável no âmago de suas várias apresentações, as inconfundíveis palavras de Carlos Drumond de Andrade revelam a perpetuidade da angústia humana da “solidão na multidão”, algo bastante contemporâneo, mas certamente não exclusivo, da plena era digital: 

A BRUXA (José)
Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.
Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?
E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.
Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?
Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.
Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

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