sexta-feira, 15 de maio de 2015

Elogio à vida

Não é novidade à ninguém que nas últimas semanas não parei. Rio de Janeiro, Fortaleza, Jericoacoara, passeio de lancha em Nazaré Paulista, Salto de Asa Delta em Boituva, fora as múltiplas saídas, churrascos,. pubs e afins na região.
Pois bem… sou economista. E economia basicamente trabalha com a gestão de recursos escassos. Ocorre que fui recentemente lembrado pela vida que o TEMPO é o recurso mais escasso (e democrático) que existe. O ponteiro do relógio vai se mover na mesma velocidade seja você rico, pobre, novo, idoso, brasileiro ou gringo.
Vi uma vez numa série de TV (Dusk till Dawn) um personagem que contabilizava sua vida de trás para frente. Já em avançada idade, ele dizia que não deveria ter mais que 200 finais de semana com sua netinha e, portanto, cada um que ele desperdiçava com outra coisa (trabalhando por exemplo) era uma oportunidade a menos seu ente querido. Com essa lógica, cada data desperdiçada começa a pesar.
Mas como nunca sabemos quando soará o gongo final, ficamos impossibilitados de fazer uma contagem regressiva mais precisa como essa (a propósito, dito personagem é assassinado à lá Tarantino neste mesmo episódio da série, mostrando que sua contagem estava ainda otimista). De qualquer forma, é irônico como ao se pensar no fim da vida que se deseja mais desesperadamente viver.
Certa vez li algumas passagens do livro de Bronnie Ware, uma enfermeira que passou muitos anos trabalhando com cuidados paliativos de pacientes em seus últimos meses de vida. E é a partir exatamente dessa lição de vida que ela escreve sobre os maiores arrependimentos das pessoas antes de morrer. Pasmem, o primeiro da lista é: "Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse - sonhos e verdadeiras buscas são simplesmente deixadas de lado”, sendo também muito citado algo como "Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz”.
Em janeiro desse ano, ainda em meio à tentativa da efetivação das promessas da virada 2014/15, estava eu correndo na lagoa quando senti uma fisgada na coxa esquerda. Com o corpo quente e a persistência de quem não quer parar, terminei o treino, descansei mas vi que o incômodo não diminuía com o passar dos dias. Procurei um ortopedista que frequento de velha data, apostando que eu teria uma distensão muscular ou algo simples… Daí parti para um primeiro raio X seguido de ressonância, como esperado. Ocorre que a partir de então seguiu-se uma maratona de exames de imagem: uma segunda ressonância com contraste, tomografias, cintilografia óssea… e a indicação para que eu fosse procurar um centro oncológico. Família reunida, falta de foco nas atividades diárias e trabalho, amigos de plantão e o involuntário pensamento sobre os possíveis desdobramentos…
Em um dia você está acordando cedo colocando o tênis para correr. Algumas semanas depois está de camisola em uma maca sendo levado para uma biópsia aos 31 anos! É aí que o outrora referido democrático tic tac do relógio parece então estar desafiando as leis do universo e ter se voltado contra você!
Mas por uma dádiva e chance concedida, esse foi todo meu sofrimento! O diagnóstico resultou em… NADA. Não tinha um tumor ósseo nem tampouco uma osteomielite (infecção óssea, o que seria até mais provável). Pairou aquele mistério da medicina… mistério pelo qual você agradece à Deus e não questiona! Um mês depois e outra ressonância e… NADA… não houve evolução da lesão. UFA!!! É por isso que no presente ano comemoro não um aniversário, mas a Vida em si!
Após essa experiência, resolvi fazer valer o “sermão” de John Lenon (já meio clichê) de que "A vida é aquilo que acontece enquanto você faz seus planos”, deixando de lado a sobrevivência e a costumeira (e a té mesmo cômoda) postergação de planos e sonhos!
O que fica então? A busca por uma vida mais “leve” sendo uma pessoa mais “fácil de levar” com quem as pessoas queiram estar… isso simplifica muito! Fica também a corrida atrás dos desejos, dos sonhos, das coisas que valham à pena. Chega de desperdiçar o escasso tempo com brigas e discussões homéricas sem propósito e que a nada levarão! Chega de revisar as palavras que serão ditas ou escritas e encobrir os sentimentos. Não mais descartar as muitas pessoas que conhecemos e que nos proporcionam riquíssimas experiências com base em poucas falhas que nelas achamos por nossa fixação por uma ilusória perfeição. Estou longe de cultuar a vida de um bon vivant inconsequente, mas também quero ficar longe de ser um ser que por tanto racionalizar esqueceu de viver as emoções de se permitir entrar em estradas e caminhos novos que além da aventura da jornada levarão a novos lugares. “Não se pode descobrir novas terras sem aceitar perder de vista a costa”.
Quero VIVER! Quero sempre ter gratidão e saber agradecer por esse dom magnífico! E pedir para possuir sempre condições, caráter e coragem para fazer com que VALHA A PENA e que ao final eu possa descansar regozijado simplesmente por ter sabido aproveitar …
Aproveitar das tardes chuvosas de verão às manhãs frias de inverno… Aproveitar das risadas ao café no break do trabalho às baladas de fim de ano às margens do mar… Aproveitar do ombro amigo que acomoda as inevitáveis lágrimas ao brilho do sorriso que se consegue conquistar.
Por um tic tac menos medíocre, um brinde à VIDA!!!

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