Seguindo a lógica do último post (Por que os homens tem medo de se envolver?), disponho-me aqui a devanear em acerca das motivações que nos levam (ou não) a dar um passo afrente, adentrando em relacionamentos mais sérios. Será que as pessoas estão se precipitando ou mais: será que deixamo-nos ser levados por impulsos sem uma avaliação mais ponderada e séria disto que envolve, além de nossos prazeres, expectativas e vontades (e a já citada troca dos proveitos da vida individualista pelas virtudes da vida em cumplicidade), a vida de outrem?
Antes de mais nada, vale frisar que por envolvimento eu me refiro às cobranças por um RÓTULO de relacionamento mais sério, muitas vezes apressando o próprio tempo de maturação da relação, e não a pura, simples e até mesmo natural (instintivo, devo dizer) intensificação da aproximação das pessoas com demonstração de interesse mútuo.
Não faço aqui uma apologia a um comportamento hedonista ou a uma vida promíscua, mas sim à uma maior ponderação em um começo de relacionamento, o que pode desencadear algo mais sério, o surgimento de uma relação amistosa, ou ao menos servir como boa experiência de vida (afinal, “Não arriscar nada é arriscar tudo” - Cesare Cantú). Cultuo, assim, uma visão mais “take it easy” para início de relacionamentos, o que pode inclusive suprimir alguns transtornos, cobranças e dores posteriores.
Todavia (e dando prosseguimento à discussão iniciada no tópico anterior), é comum haver cobrança para que seja conferido um “maior grau de seriedade” precocemente. Talvez isto seja uma cobrança social, talvez constitua a busca de uma (falsa) segurança individual (criando um vínculo hipoteticamente mais difícil de ser desfeito), mas é fato que não são poucos os que se lançam a um número tão grande de relacionamentos “sérios” que, de tão efêmeros, exigem nossa atenção para não confundir os nomes dos(as) temporários(as) respectivos(as).
As fantasias de “príncipe e princesa” iniciam bem cedo em nossas vidas. Desde crianças, vendo os desenhos da Disney, começamos a perceber que mais cedo ou mais tarde será iniciada uma busca por aquela pessoa com quem juntos ficaremos. E é cada vez mais cedo que esta busca começa (basta olhar para os pré-adolescentes de hoje que abandonam os tão deleitosos brinquedos para se lançar a algo que não entendem com a necessária seriedade, mas veem como diretriz).
Há também um número não pequeno de casos de traições (não apenas em namoros, mas em muitos casamentos “consolidados” que deram frutos a filhos que muito sofrem com tanto), divórcios e relacionamentos mantidos apenas externamente, mas já há muito ocos e sem vida (“beleza americana”).
Será que estes dois fatos não tem relação? Pessoas lançando-se subitamente a relacionamentos por conforto, segurança, comodismo ou aceitação social que, mais tarde, descobrem-se infelizes?
Por isso, talvez eu veja que os melhores relacionamentos surgem de grandes amizades, inicialmente descompromissadas, quando as pessoas tornam-se de fato confidentes, primeiro se conhecendo bem, para apenas depois deixar, paulatinamente, surgir interesse em “algo mais”. Sim, estou afirmando de fato que a “arte” dos relacionamentos (para não falar em “amor”, elemento ainda misterioso para a humanidade, ainda que tenhamos banalizado a palavra) pode (e talvez deva) ser muito mais racionalizada, e não deixada às emoções e vontades, muitas vezes bastante passageiras e até mesmo controversas.
Há inclusive estudos da neurologia que, embora em fase ainda bastante embrionária, conseguem indicar grande correlação entre a paixão (para saber mais, siga as orientações de Sócrates – “Conhece-te a ti mesmo” - e leia Sexo, Amor, Endorfinas & Bobagens, da médica e neuropesquisadora, Cibele Fabichak), que, muito além de ser “fogo que arde sem se ver”, é uma aproximação inicial temporariamente incitada por hormônios e neurotransmissores, que passam inclusive a nos “enganar” por alguns meses ou até anos, exaltando as qualidades da outra pessoa e suprimindo seus defeitos, e criando uma dependência extrema pela contraparte (agora entende porque todos seus amigos viam que aquela pessoa nada tinha a ver com você e só agora, depois de tudo se passar, passou a perceber?)
Sei que para alguns isto tudo pode parecer loucura, uma tentativa de “racionalizar ao extremo o sentimento”, mas tenho comigo que conhecer outra pessoa com quem se quer passar por bons e maus momentos, confidenciar a vida e acompanhar até envelhecer (pelo menos segundo a “old school” dos relacionamentos) é algo bastante sério e que deve assim receber mais atenção das pessoas, indicando, inclusive, respeito pela vida e sentimentos da outra parte do relacionamento. Longe de querer criar uma “fórmula mágica e geral”, creio ser isto uma forma exaltar a capacidade de envolvimento e relacionamento humana, distanciando-nos de um “jogo de conquista” ou de marionetes de hormônios e do comportamento instintivo animal.
Novamente evocando o tópico anterior, talvez isto explique ainda o “medo” de certos envolvimentos... Talvez este medo seja algum indicador “vá com calma, de tempo ao tempo”, como uma defesa natural para evitar um mergulho muito profundo que possa trazer consequências desastrosas.
Tal como um corpo em queda livre necessita de uma série de abstrações para ter sua trajetória reproduzida pelas fórmulas físicas (e mesmo com os mais potentes supercomputadores encontra-se dificuldade em simular eventos reais), assim também o é em nossas vidas, um jogo multidimensional (não cartesiano e tampouco binário) com as mais complexas e amplas variáveis existentes, tornando impossível qualquer previsão. Por isso mesmo, não repudio as tentativas, somente as quais de fato revelarão as reais trajetórias. Mas que isto seja feito de forma mais cuidada, sem afobamentos, afinal, contrariamente às simulações, não é possível desfazer, ignorar ou deletar as consequências das ações.
Com toda a complexidade humana, é difícil conceber que esta busca se resuma a um jogo de tentativa e erro, regido pela sorte. Que as buscas e tentativas sejam bem vindas, contanto que parcimoniosamente, pois como eu mesmo já escrevi: “Só perde quem possuiu; apenas morre aquele que um dia viveu; tão somente sofre o que foi um dia feliz; unicamente falha os que honrosamente tiveram coragem de se aventurar, mobilizar-se e tentar”.
A sua visão sobre como começar um relacionamento mais sério de uma forma menos apressada, mais racional e ponderada, é muito interessante, só que muitas vezes é difícil e confuso racionalizar nossos sentimentos, pelo simples fato de que nem todos são “calculistas” e têm esse discernimento pra lidar com seus sentimentos de forma mais racional e ponderada.
ResponderExcluirAcho que é possível sim, ir com calma, conhecer a pessoa primeiro, conviver, criar um laço de amizade, pra depois realmente saber se essa é “a” pessoa certa.. mas sabe o que torna toda essa reflexão tão complexa?
Será que existe realmente uma pessoa certa? Se todos os seres humanos são repletos de defeitos, imperfeições, medos, manias, assim como são repletos de bondade, afeto, lealdade, não dá pra ter certeza sobre a pessoa certa, por isso, a chance de um relacionamento fracassar é grande, mesmo quando usamos o seu “ideal” do racionalizar porque o amor não é uma fórmula matemática como você bem citou e sentimentos não são como tabelas pra serem seguidas...
Pra mim tudo que é feito de coração, além da razão também é valido, porque certas vivencias que não têm explicação, assim como o amor não tem explicação... “ele” simplesmente acontece, e se for pra dar errado não poderemos prever afinal, as decepções e os erros não nos matam e sim nos ensinam a viver :D